Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:29

Sab, 25/04/09

Ouvi os discursos de hoje no parlamento, por ocasião do aniversário do 25 de Abril de 1974. Deram-me sono.

Falaram de crise, como se ela alguma vez nos tivesse deixado. Falaram de socialismo, na gaveta uns, outros na bandeira. Falaram da necessidade de falar verdade aos portugueses, ou seja, assumiram que algumas (muitas) vezes os políticos mentem. Não é novidade nenhuma, eu sei, mas ouvi-los dizer que "agora" não se deve fazer é quase obsceno.
O partido dos Verdes lembrou o largo Oliveira Salazar que foi inaugurado justamente hoje, em Santa Combadão. Eles consideram um insulto. Eu também. É claro que o Salazar não tinha só coisas más (como poderemos comprovar no recente filme... (ironia)), mas daí até celebrar a sua carreira de estadista vai um grande pedaço. Salazar era um retrógrado, reaccionário, passadista criminoso que fez nome por ter posto as contas do país em dia. Sem dúvida, retirou-o do caos do início da república e dos sucessivos governos mas colocou-o ao serviço do silêncio, do negócio obscuro, da polícia secreta, da ignorância selectiva, deixou-nos orgulhosamente sós contra o mundo a gritar "Angola é nossa!" embora ele nunca lá tenha posto os pés. Era um homem do século XX com os pés assentes no XIX. Todo ele cheirava a mofo e sangue seco.

Salazar foi um insulto para Portugal, o que o 25 de Abril celebra não é apenas a passagem de uma ditadura para um regime democrático vagamente socialista, é o fim de todas as mortes e prisões injustas, impostas por leis absurdas aplicadas por uma polícia secreta abjecta e cobarde. Perguntem aos familiares de todos os que foram presos e mortos pela polícia secreta para que serviu o 25 de Abril. Perguntem a todos os que morreram no ultramar para que serviu o 25 de Abril. Perguntem, por fim, a todos os que nasceram depois do 25 de Abril porque razão não têm medo de erguer a voz para falar.

Mais do que falar de crise (já estou farto e de cada vez que ouço a palavra tenho de me conter para não explodir) devemos falar de como conseguimos fazer uma revolução sem sangue e não apenas uma "transição" como queria o CDS hoje no seu discurso. Não se derramou sangue porque a cobardia do regime, o silêncio que ele fomentava, se virou contra ele e não lhe permitiu sequer esboçar uma reacção. Porque o regime caiu de podre. Porque o povo é soberano e é sempre quem mais ordena.

Mais do que falar de crise devemos falar de escolas e educação e cultura e de como podemos apetrechar o país com pessoas capazes, inteligentes, inovadoras, empreendedoras. Mais do que falar de crise devemos pensar em como podemos trazer de volta todos os portugueses brilhantes que vão para o estrangeiro dar o seu melhor a outros países, deixando para trás famílias, sonhos, paixões - Matsuo Bashô, o poeta japonês de haikai do século XVI descobriu que não é preciso fazermos viagens para nos iluminarmos - "nós somos iluminados onde estamos". Mais do que falar de crise devemos conjurar um sistema (socialista?) que nos permita ver mais além do que o empréstimo para a compra da casa ou o pagamento do IRS.

Com a aproximação das campanhas eleitorais crescem também as demagogias e as promessas ocas. Não nos podemos enganar. É preciso pensar no passado mais recente. No último período de 20 anos, desde a entrada na CEE: Cavaco Silva e o seu esbanjamento de dinheiros públicos que trouxe de volta a elite que dominava o país antes de 1974, Guterres e a sua irresponsabilidade pueril, Durão Barroso e a sua ascensão carreirista e traidora, Santana Lopes, o inqualificável com o seu amigo Portas - o dos submarinos, e Sócrates com as suas reformas autistas. É preciso pensar nestes senhores e não nos deixarmos enganar. Ou seja, votar em todos menos neles. E não apenas não votar. A abstenção não é solução. Quem não vota quer voltar a uma ditadura. E isso é inadmissível.


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