Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 00:57

Ter, 21/04/09

Grupo, tribo, chefatura, estado

 

A necessidade de sobrevivência e o sentido de pertença ou ligação aos outros leva os seres humanos a organizarem-se em comunidades. Cada tipo e escala de organização social envolve de diferentes modos as nossas faculdades comunicacionais, a imaginação de nós próprios e as nossas relações com os outros. Jared Diamond identificou quatro tipos de sociedades que vão da intimidade dos relativamente simples grupos nómadas, passando pelos povoados organizados por tribos e chefaturas, até aos altamente complexos e centralizados modelos de estado.

Quando o discurso completamente articulado se desenvolveu (há 35.000 anos), todos os humanos viviam em grupos. Muitos continuaram a fazê-lo até há cerca de 11.000 anos. Hoje em dia apenas alguns grupos vivem autonomamente em regiões remotas da Nova Guiné e na Amazónia (outros grupos como os San sul africanos, os aborígenes australianos e os Inuit norte-americanos ficaram sob o controle dos estados, tendo sido ameaçados de extinção, e/ou assimilados). Os grupos variam em tamanho, entre cinco a 80 pessoas, e são as formas mais pequenas e íntimas de sociedade humana, com todos os membros do grupo relacionados por nascimento ou casamento. Os grupos são nómadas; baseiam as suas relações no parentesco; partilham uma linguagem comum; trocam histórias, palavras, danças, música, rituais e bens; tomam decisões de modo relativamente igualitário e informal. Dentro dos grupos não há estratificação por classe, nem há modos hereditários ou formais de liderança, ou monopolização da tomada de decisão. Os líderes emergem informalmente através da força de carácter, inteligência e/ou capacidade de luta. Porque nas pessoas que vivem em grupos a experiência é moldada em primeiro lugar através de relações totalmente envolventes com o ambiente imediato e através do contacto cara-a-cara com aqueles com que se envolvem diariamente, muitas vezes moldados por acções culturais colectivas e rituais.

Há 14.000 anos, o Homo Sapiens era a única espécie de hominídeo sobrevivente, diferenciado por centenas de famílias e milhares de línguas, organizadas em pequenos grupos. Há 12.000 anos, um clima mais quente empurrou a Idade do Gelo para os pólos. Os níveis de subida dos oceanos dividiram os povos. O clima cada vez mais quente permitiu o crescimento e domesticação de sementes selvagens, acabando por produzir uma revolução biológica. A maior parte dos agrupamentos de populações podia desenvolver-se e subsistir em regiões do mundo ricas em recursos, ao cultivar trigo e cevada, e possuir cabras e ovelhas. No Crescente Fértil no Médio Oriente (no Iraque de hoje entre o os rios Eufrates e Tigre) e talvez em mais alguns, poucos, sítios do mundo, uma nova forma de organização social estabelecida começou a emergir - as tribos. Foram construídas habitações permanentes onde centenas, em vez de dezenas, de pessoas viviam em povoados, partilhando uma linguagem e cultura comuns, onde se incluíam as acções culturais e rituais. A organização tribal é caracterizada pelo seu padrão de residência fixa, e os seus grupos maiores consistem de mais de um grupo de parentescos (clãs). Os clãs particulares possuem direitos sobre pedaços de terreno. As tribos ainda são suficientemente pequenas para os seus indivíduos serem conhecidos pelas relações e nomes. Como nos grupos, as tribos podem ser governadas por um sistema de alguma maneira informal e "igualitário" onde as informações e a tomada de decisões são partilhadas por todos. Em algumas tribos pode emergir um "homem-importante" que alcança um estatuto elevado através da força do seu carácter. A troca recíproca e o modo de organização sócio-económica participativa continua a caracterizar a interacção tanto nas tribos como nos grupos. À medida que os povos se vão fixando, determinadas linguagens começam a ficar associadas com regiões geográficas específicas. A linguagem associa-se à terra.

As chefaturas nasceram cerca de 5000 a. C. na região do Crescente Fértil, e à volta de 1000 a. C. na Mesoamérica e nos Andes. As chefaturas são consideravelmente maiores que as tribos, indo de alguns milhares a várias dezenas de milhar de pessoas. As chefaturas foram as primeiras sociedades organizadas à volta de uma figura da autoridade central e hereditária, que muitas vezes detinha o monopólio do exercício do poder, centralizando a informação e as decisões. As decisões do chefe eram normalmente implementadas por um ou dois níveis de burocratas que muitas vezs desempenhavam vários papéis, tal como no Havai polinesiano onde os konohiki tomavam conta do trabalho, irrigação, e de um conjunto de tributos. Alguns chefes, tais como esses do Havai, eram tidos como divinos, ou de descendência divina, e em ambos combinavam a autoridade do papel de ser padre-chefe, ou apoiavam um grupo à parte de padres que encontravam justificação para a sua autoridade. Enquanto os grupos e as tribos possuíam crenças sobrenaturais e práticas rituais, estas crenças e práticas não estavam habituadas a

 

justificar a autoridade central, justificar transferências de riqueza, ou manter a paz entre indivíduos que não estivessem relacionados. Quando as crenças sobrenaturais assumiram essas funções e se institucionalizaram, foram, por isso, transformadas naquilo que designamos religião.

 

Algumas chefaturas eram suficientemente grandes para coexistirem em múltiplas aldeias (com o chefe da aldeia como superior), e a terem pessoas com faculdades especiais para produzirem bens de luxo especiais, e a delegar os trabalhos mais baixos a escravos - aqueles que eram capturados em ataques. As chefaturas mudaram da confiança em trocas recíprocas características de grupos e tribos para uma forma de tributo onde uma porção da colheita de cada um era dada ao chefe - a maior parte ficava retida centralizadamente e uma pequena porção podia ser redistribuída como parte de uma festa ou de qualquer outra ocasião pública. Os chefes podiam também pedir que os membros trabalhassem, por exemplo, erigindo uma peça de arquitectura pública, como templos, jazigos funerários, henges (grandes estruturas circulares), ou sistemas de irrigação. Os bens de luxo eram normalmente reservados aos chefes, como as escavações arqueológicas dos seus túmulos revelam.

O desenvolvimento de modos de organização social mais abrangentes e complexos como as chefaturas (e os estados) cria um cenários social onde, pela primeira vez, os indivíduos compreendem que estão ligados a pessoas que nunca viram. Por exemplo, os aldeões javaneses e indianos, por tradição, sabem que estão ligados a pessoas que nunca conheceram através de laços especiais de parentesco e/ou clientela. Por isso, até há muito pouco tempo não havia nenhuma palavra em javanês que designasse o conceito abstracto de "sociedade". A identificação do lugar de determinados indivíduos na sociedade era identificado por epítetos como "senhor de X" ou "mãe de Y" ou "cliente de Z." As ligações de uns aos outros não eram necessariamente baseadas apenas no grupo ou ambiente mais próximo, mas sim "imaginadas". Dentro de grandes comunidades como as chefaturas (e estados), a imaginação de uma comunidade maior a que se pertence é moldada e estilizada distintamente em épocas diferentes e em culturas diferentes.

Só em 1492 d. C., as chefaturas se tornaram comuns em áreas produtivas da América Central e do Sul e em algumas partes da África sub-sahariana, no leste dos Estados Unidos e na Polinésia. Mas no século vinte desapareceram depois das chefaturas terem sido conquistadas pelos estados. Hoje em dia, os estados são a forma mais familiar de organização social, política e económica; realmente, toda a terra do mundo, com excepção da Antártida, é agora governada por estados-nação modernos. Tanto os estados modernos como os antigos partilham as mesmas características. Ambos têm um alto grau de controle centralizado e de especialização económica, o que muitas vezes inclui a produção em massa e execução de trabalhos públicos. Em ambos encontramos a redistribuição económica (impostos em vez de tributos) e uma proliferação de administradores especializados e profissionais, escolhidos, pelo menos em parte, com base na sua preparação e competência. Em ambos, os conflitos internos são resolvidos com recurso a leis. Ambos têm um sistema judicial e polícia, e em ambos, os modos de organização são baseados não no parentesco mas em lealdade política e linhas territoriais. Ao contrário dos grupos, tribos, e chefaturas, que consistem apenas de um único grupo étnico e linguístico, os estados e especialmente os impérios (formados a partir da conquista de vários estados) são pulrilíngues e multi-étnicos.

As primerias formas de organização estatal cresceram em 3700 a. C. na Mesopotâmia e 3000 a.C. na Mesoamérica, há cerca de 2000 anos na China, Sudeste da Ásia, e na região dos Andes na América do Sul, e há mais de mil anos na África Ocidental. As características desses primeiros estados eram: a liderança de um líder honorífico e hereditário - tanto um rei considerado divino como um líder equivalente; a adopção da escravidão numa escala maior que no caso das chefaturas; e o desenvolvimento de religiões estatais, muitas vezes acompanhadas de templos padronizados. Nenhuma chefatura desenvolveu a escrita, excepto aquelas que se encontravam no processo de se tornarem estados. Realmente, os primeiros sistemas "completos" de escrita desenvolveram-se mais ou menos ao mesmo tempo que a formação dos primeiros estados da Mesopotâmia e da Mesoamérica. À medida que esses sistemas de escritam se desenvolviam, nasciam as elites letradas nos primeiros estados, criando uma tipo de condições sócio-culturais onde a arte dramática e o teatro se desenvolveram.

 

Philip B. Zarrilli in Theatre Histories - an Introduction. Tradução minha.




Anders @ 18:56

Qua, 22/04/20

 

"Jared Diamond identificou quatro tipos de sociedades que vão da intimidade dos relativamente simples grupos nómadas, passando pelos povoados organizados por tribos e chefaturas, até aos altamente complexos e centralizados modelos de estado."

Em qual livro?