Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:45

Sab, 21/03/09

Bertolt Brecht escreveu A Mãe - adaptação do romance homónimo de Maxim Gorki - durante os anos 30 do século XX. A primeira versão estreou em 1932 e aquela que foi apresentada ontem à noite na Culturgest e que chegou até nós através da tradução de Lino Marques publicada na Cotovia em 2005 é a versão de 1938 fixada pelo próprio autor.

É uma peça que fala da eterna e inevitável luta do proletariado contra os patrões. Uma mulher envolvida na luta de classes, sem querer, pelo próprio filho, acaba por ser símbolo dessa mesma luta. Quando ele acaba na prisão ela decide aprender a ler e escrever para continuar a luta. Mesmo depois do filho morrer, ao tentar passar a fronteira da Rússia para a Finlândia, a tenacidade de Pelagea Vlassova não diminui:

 

E eu, Pelagea Vlassova, viúva de um operário e mãe de um operário, ainda tenho tanto para fazer! Quando, há muitos anos, via, com preocupação, que o meu filho já não tinha o suficiente para comer, só lamentava a minha sorte, o que não adiantava de nada. Depois ajudei-o na luta do copeque. Antigamente participávamos em pequenas greves por melhores salários. Agora participamos numa greve gigantesca nas fábricas de armamento e lutamos pelo poder do Estado.(...)

Quem ainda for vivo, não diga "nunca"!

Neste mundo não há certezas.

As coisas não irão ficar como estão.

Quando os opressores tiverem falado

Falarão os oprimidos.

Quem se atreve a dizer "nunca!"?

De quem é a responsabilidade se a opressão continuar?

É nossa.

De quem é a responsabilidade se ela for destruída? Também será nossa.

Levante-se, quem for derrubado!

Lute, quem estiver perdido!

Quem poderá deter aquele que está consciente da sua situação?

Pois os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã

E o "nunca" transforma-se em "Hoje ainda!"

 

Nos dias que correm parece que cada vez faz mais sentido falar destas coisas, Marx começa a ser relido (se é que alguma vez foi lido convenientemente...), o público de ontem na Culturgest estava sintomaticamente silencioso nas passagens mais complexas e filosóficas, a música de Hanns Eisler através do piano magistralmente tocado por João Paulo Esteves da Silva inundava o espaço do teatro de modo justo, acompanhado por um coro que fazia ouvir a cidade e as preocupações tanto da plateia como dos artistas no palco. A mestria de Brecht reside principalmente nesta relação que se consegue estabelecer entre a plateia e a história contada pelos actores.

Quanto ao espectáculo propriamente dito: uma maravilha. Não é muito usual vermos espectáculos desta qualidade em Portugal, e muito menos feitos por companhias portuguesas e profissionais portugueses. Da música à representação, passando pelos figurinos e cenários ou os apontamentos de vídeo, tudo é relacionado e carpinteirado primorosamente, o grupo dá atenção a pormenores e valoriza-os, mas ao mesmo tempo o espectáculo fica em aberto, há lugar para a improvisação e para o puro prazer dos sentidos; nada é deixado ao acaso, mas a atenção para o pormenor é dadaísta, onde a proveniência dos diferentes materiais não sofre qualquer julgamento de valor mas é alvo de cuidadosa análise e refinamento estético.

Os nomes dos responsáveis vão na ficha técnica que reproduzo mas talvez nunca seja demais referir dois ou três que estão por trás destas inciativas e que de modo consistente vão criando estas pérolas para nosso deleite: Bruno Bravo, Gonçalo Amorim e Francisco Frazão. A eles: muito obrigado e um abraço.

 

Título original | Die Mutter (1931) 
Tradução | Lino Marques (Teatro III de Brecht, Livros Cotovia)
Encenação | Gonçalo Amorim
Assistência e pesquisa dramatúrgica | Ana Bigotte Vieira 
Cenografia | Rita Abreu 
Figurinos e adereços | Ana Limpinho e Maria João Castelo 
Tradução das canções | Pedro Boléo e João Paulo Esteves da Silva
Músico |João Paulo Esteves da Silva
Pesquisa e recolha musical | Pedro Boléo
Sonoplasta | Sérgio Milhano 
Movimento | Vânia Rovisco
Desenho de luz | José Manuel Rodrigues
Construção de cenário | Nuno Tomaz e Carlos Caetano
Design gráfico | Rosa Baptista
Imagem | Frederico Lobo
Produção | Mafalda Gouveia
Assistência de Produção | Andreia Carneiro

Interpretação | Bruno Bravo, Carla Galvão, Carla Maciel, Carloto Cotta, David Pereira Bastos, Mónica Garnel, Paula Diogo, Pedro Carmo, Raquel Castro e Romeu Costa

Co-produção | Gonçalo Amorim, Culturgest, Centro Cultural Vila Flor e TEMPO – Teatro Municipal de Portimão