CABELO
O cabelo é a principal arma de defesa da contra-cultura. Numa sociedade onde os indivíduos parecem confrontar-se como se fossem agentes de determinados grupos, os cortes de cabelo constituem uma espécie de linha limite que a autoridade vê como transgressora ou possível de incorporar diferentes momentos. Ao contrário das roupas, que são evidentemente manufacturadas, o cabelo inscreve a orientação social daquele que o usa. À semelhança das tatuagens ou dos anéis no nariz, é uma parte do corpo com o qual o indivíduo não pode deixar de fazer uma declaração social.
A religião burguesa da arte gostaria de manter a arte separada da moda. E isto é simplesmente impossível. Desde que o objecto estético começou a assumir posições polémicas contra a sociedade, e o seu espírito objectivo, que ele mantém uma ligação secreta a essa sociedade através da moda.*
A Menina Pamela das G.T.O. começa o seu livro Confessions com um relato de um corte de cabelo de Elvis Presley:
Tenho arrepios sempre que vejo aqueles velhos filmes a preto e branco do Elvis a desmontar-se todo para entrar no ritmo do Tio Sam. Quando passava a mão pelas raízes da sua antiga juba azul escura, sentia uma dor momentânea nas têmporas. No glorioso ano de 1960, fui ao Reseda Theatre com os meus pais e vi aquelas filmagens famosas do exército, antes da matança em Psico. Não sei o que era mais horrível. Agarrei-me ao pescoço do meu pai, inspirei a familiaridade reconfortante da sua loção aftershave e belisquei-me à medida que o Norman Bates fazia o seu trabalho sujo, e o barbeiro do exército o seu. Tentei crer que o Elvis estivesse a cumprir o seu dever como AMERICANO, mas mesmo aos onze anos percebi que a sua vulgaridade tinha diminuido consideravelmente.
O discurso faz lembrar a velha associação bíblica dos cortes de cabelo e a castração (Sansão e Dalila). A Menina Pamela refere um momento histórico do corte de cabelo. Depois de uma aceitação tão abrangente de temas de castração, de maneira a poder radiodifundir a domesticação de Elvis e a morte do rock ‘n’ roll, não havia dúvida que a revolução do rock e a oposição à guerra do Vietnam seria travada pelos cabeludos. Ligar o cabelo comprido à rebelião foi frase feita dos anos 60. De acordo com David Walley, os donos dos clubes de L.A. recusavam agendar bandas com o cabelo curto durante a explosão dos Beatles em 1965. Zappa disse aos Mothers para deixarem crescer os deles. Roy Estrada e Jimmy Carl Black, que viviam em Santa Ana em Orange County, a base do poder de Richard Nixon e também notável bastião de conservadores, evitavam alguns problemas penteando o cabelo para trás, quando voltavam a casa à noite. O cabelo comprido tinha tanto mais estilo quanto mais comprido fosse. A Menina Pamela conta uma história comovente do seu namorado oleoso rejeitado, Bob Martine, que tentava transformar James Dean em Jim Morrison.
Saiu no dia seguinte e comprou umas calças à boca de sino, de bombazine, que lhe ficavam muito curtas; penteou a preciosa cabeleira para trás. Ficava espetada para os dois lados, como o Bozo. Eu gemi calmamente, sofria de compaixão.
Em Ruben & the Jets havia instruções para atingir um ondulado perfeito, uma brincadeira sobre as modas antiquadas que, para um público mais jovem, pareciam simplesmente surreais. As mudanças nos cortes de cabelo resumiam a transição da rebelião contra a escola e pais a uma denúncia global do capitalismo: do rock ‘n’ roll aos freaks.
Tal como em tudo o resto, o punk virou o simbolismo ao contrário: o cabelo comprido foi atacado por ser conformista e corrupto. No final dos anos 80, o conformismo dos cabelos compridos já tinha vertido no resto da comunidade: o prestígio económico e tecnocrata do ‘guru unix' dos hippies significava que o cabelo comprido se tinha tornado aceitável num ambiente de negócios (com rabo de cavalo – os Heaven 17 previram isto mesmo na capa da Penthouse and Pavement em 1981).
Tal como o falo na versão lacaniana de Freud, o objecto totémico só tem significado dentro de um contexto e pode, por isso, conter em si contradições. Só aqueles que acreditam que o estilo e os objectos de arte têm um significado como essência intrínseca são surpreendidos pelo modo como subitamente invertem a sua lógica.
Zappa sempre foi sensível para a natureza instável do estilo-da-oposição, mas a sua atenção materialista para os pormenores significava que ele não propunha um “não-estilo” transcendental alternativo (uma opção que leva concerteza a confusões ideológicas). Embora seja frequentemente atacado pela ‘vulgaridade’ dos seus temas, Zappa constrói a sua arte a partir de detritos da cultura de massas, a espuma fétida que flutua quando a trajectória intermitente da moda renasce.
Quem é que se importa se o cabelo é grande ou curto
Ou sprâiado ou parcialmente cinzento
SABEMOS QUE O CABELO NÃO É O MAIS IMPORTANTE**
O ‘niilismo’ de Zappa, pelo qual foi atacado na Let It Rock em 1975, é de facto a recusa de uma ética binária. É o aspecto utópico da inovação musical que procura dar significado, na sua especificidade, à actualidade do som, em vez de tentar fazer escolhas a partir de categorias predefinidas, opções essas que, elas sim, trazem a opressão. A atenção dada ao símbolo chave do cabelo dos anos 60, levou Zappa a trabalhar a mesma dialéctica que Arnold Shoenberg questionou, na polaridade tradicional dos tons maiores e menores, no tema e variações, na tonalidade e no cromatismo – uma interpelação que levou à atonalidade livre.
*Theodor Adorno, Teoria Estética.
** "Who Cares if hair is long or short / Or sprayed or partly grayed / WE KNOW THAT HAIR AIN'T WHERE IT'S AT". Frank Zappa, 'Take Your Clothes Off When You Dance'.