A propósito de uma iniciativa do INET-MD Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos de Música e Dança, da Universidade Nova de Lisboa, que se repete no dia 20 e que promove um espaço de diálogo entre músicos, indústria e o meio universitário, Tozé Brito, o manda-chuva português da Universal Music, que possui um currículo invejável como músico, produtor e compositor, disse que queria que as pessoas que fazem downloads ilegais fossem presas.
Sim, leram bem, presas.
Quando esses senhores, os grandes editores, fizeram rios de dinheiro, revendendo catálogos inteiros durante a passagem do vinil para os cds, não acharam que isso era um roubo. Não, isso não. Os cds custam 50 cêntimos, eles vendem-nos a 30 euros, e acham que podem, devem, ter uma margem de lucro que inclua novamente o investimento das editoras, como se aquilo fosse uma coisa nova. Eles vendem duas vezes a mesma coisa mas agem como se fosse legítimo. E têm o descaramento de vir pedir a prisão de quem descarrega música na internet porque os preços da música se tornaram proibitivos? (Já para não falar na cultura consumista que divulga apenas os artistas que Eles querem, quando Eles querem - toda a música não-comercial fica nas ruas da amargura como sempre.) Esquecem-se de dizer que a maior parte das pessoas que descarrega música são os mesmos clientes (como eu) que se fartaram de encher o bolso às editoras que tinham lucros astronómicos, normalmente muito maiores do que aqueles que os artistas tinham a sorte de usufruir.
É claro que a indústria vai sobreviver à catástrofe que as vendas de música sofreram (cerca de 50% de vendas a menos), ele próprio o admite, e o que é que isso quer dizer afinal? Quer dizer que tipos como ele e o patrão da Virgin (uma das pessoas mais ricas do mundo, dono de uma ilha!), que têm como hobby viajar no espaço, não vão ter dinheiro para gastar nas suas extravagâncias. Ou seja, tipos que vivem à custa do dinheiro feito pelos artistas vão ter de apertar o cinto e fazer contas e dedicar-se a outra coisa se querem continuar com o mesmo estilo de vida.
Como sempre, as pessoas menos preocupadas com os downloads de música são os próprios artistas. Os Radiohead que disponibilizaram o último disco no seu site, convidando todos os fãs a darem apenas o dinheiro que quisessem por ele, ganharam mais do que quando estavam sujeitos à lei das partilhas das editoras. Só por este exemplo se consegue perceber o chupismo das editoras e a relação de parasitismo que as mesmas mantêm com os artistas.
Se as editoras querem continuar vivas elas que façam um trabalho melhor. Que incluam nos discos alguma coisa que façam as pessoas quererem mais do que a música, promovam concertos e actividades paralelas, inovem. Não venham chamar a lei para vos proteger. Nós é que precisamos da lei para nos proteger da vossa ganância. E se não quiserem inovar, que morram, afinal nós não consumimos editoras, nós consumimos artistas e a música que eles fazem. Se as editoras se tornaram obsoletas por alguma tecnológica razão, temos apenas de dizer que ninguém pára o progresso, eu também não lhes fui pedir o dinheiro que gastei no meu gira-discos quando elas decidiram passar a vender cds e retiraram os vinis dos seus catálogos. Vão roubar para a estrada!
Aqui vem uma pertinente carta aberta sobre a questão.