O MATERIALISMO E A ALMA
Fédon inclui ainda algumas ideias contra a assunção do corpo como lira, e a alma como harmonia, ambas baseadas no horror do ser corpóreo. Toda a argumentação é uma negação do corpo. Fédon é um texto fundador da filosofia europeia, mas está completamente em oposição aos materialistas sexuais. Fédon perde fé nas ideias de Sócrates, sofre uma tosquia e torna-se Bobi, a negação ordinária que habita o coração do rock ‘n’ roll e da revolução. O arcaico arcano de inúmeras gerações de velhos cagões misóginos reprimidos e opressores, a pedra de toque de todos os sistemas elitistas do mundo Ocidental, obtém a sua justa recompensa num disco que chegou ao top dez americano.
O ‘movimento circular vigoroso’ de Nanook ‘destina-se a substituir o Tubarão da Lama / na vossa mitologia’*. O 'Tubarão da Lama' era uma dança que deveria ‘varrer o oceano’ (como o twist): em Fillmore Eats June 1971, foi um sucesso (i.e. na Austrália), Zappa tornou o ‘The Mud Shark’ num acontecimento de dança. O famoso twist era apenas a mais bem sucedida de uma série de danças – o hucklebuck, o watusi, o funky chicken – que, na sua obra, se constituíram como pequenas extrusões comerciais de rituais tradicionais africanos. Ao levar o público a dançar e a divertir-se no palco, Zappa dramatiza a questão, e torna a colocar as pessoas em contacto com os corpos, recusando o idealismo elitista de Platão e a sua negação do corpo. Depois deste aviltamento – que, passa por todas as redes da indústria musical e varreu mesmo o oceano – duvida-se que Fédon sobreviva fora das academias como algo mais do que uma nota de roda pé onde o zappólogo esfola os queixos.
* "destined to take the place of the Mud Shark / In your mythology". 'Nanook Rubs it'. Apostrophe ('), 1974.