Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 23:22

Qua, 25/02/09

Modos de comunicação miméticos e episódicos

 

Para os nossos antepassados mais remotos, a apreensão directa através dos sentidos desempenhou um papel primordial na sobrevivência durante centenas de milhar de anos. Os nossos cinco sentidos permitem-nos apreender directa e imediatamente e responder ao ambiente aqui-e-agora. Embora os nossos sentidos e percepção continuem a ser importantes hoje em dia, já não dependemos deles para sobreviver na mesma medida que um dia o fizemos, excepto no caso de desastres naturais ou conflitos violentos.

Na história humana, participar em actividades colectivas físicas, tais como formas primitivas de caça, música e dança e rituais arcaicos, serviu desde muito cedo para melhorar as percepções e a atenção, e para orientar e sintonizar melhor cada uma das pessoas com os outros membros do grupo e com o meio ambiente. Nestas primeiras actividades, o humano operava em primeiro lugar como perceptor/fazedor/actor-do-mundo. Cada uma das pessoas interpelava o mundo directa e imediatamente sem a mediação do "pensamento" de estar a realizar a actividade. As formas arcaicas de música, dança e rituais pediam às pessoas que se movimentassem ou exteriorizassem com a voz simultaneamente - um meio de sintonizar a atenção sensória de cada um para os outros e de desenvolver laços sociais. O sucesso da caça com armas arcaicas dependia da faculdade do indivíduo e do grupo para se movimentarem em silêncio, rápida e furtivamente, e ao mesmo tempo manterem uma coordenação síncrona através de comunicação não-verbal com os outros. A sobrevivência era sem dúvida mais bem sucedida naqueles mais sincronizados com os seus sentidos e naqueles que, em pequenos grupos de comunidades que lutavam pela vida em condições bastante agrestes, conseguiam estabelecer laços mais fortes com os outros .

Estudos de etnólogos sobre o comportamento animal mostram que muitos animais, e especialmente os nossos antepassados primatas, também se envolviam em mimesis (imitação) simples. A faculdade para aprender através de comportamentos miméticos é essencial à sobrevivência. A mimesis também pode ser autotélica; ou seja, ter as suas próprias recompensas que são vistas como agradáveis e até divertidas. O comportamento mimético pode por isso gerar um sentimento de bem-estar. Merlin Donald usa a palavra "mimético" para descrever a segunda fase do desenvolvimento humano que vai para além do episódico. Na fase mimética, o gesto, a pose e a expressão facial começaram a ser usadas como formas primitivas de comunicação não-verbal.

Tanto o modo episódico de viver o momento como o modo mimético têm sido nucleares nas actividades do intérprete e do actor em todas as histórias e culturas. Os modos mimético e episódico são aspectos sine qua non da acção cultural ou performance, embora tenham sido inventados vários modos de exercitação para satisfazer os vários géneros específicos de acções culturais.

 

Phillip B. Zarrilli

Tradução minha