Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:23

Sex, 23/03/07

– De onde vens? – Perguntou sem curiosidade.
Olhou para o homem como se a pergunta fosse surpresa. Mal se lembrava de si próprio. Só se lembrava… de percorrer um interminável labirinto naquilo que parecia ser um convento… tinha chegado ali… por pura inércia.
Antes disso, nada.
Ou melhor… aos poucos, enquanto titubeava, gaguejando a resposta ao seu interlocutor, passava em revista a memória, vislumbrava apenas pequenos clarões de certeza. Lembrava-se de um homem de aparência familiar que escondia qualquer coisa no meio do entulho. Dirigira-se a ele para desvendar o conteúdo secreto do saco de plástico. Por entre tijolos desfeitos e erva alta viu uma coisa preta brilhante. Lá dentro cresciam rebentos de raízes. Inúmeros fetos despontavam do meio do nada. O saco estava repleto de qualquer coisa fervilhante. Larvas, ou pura e simplesmente sémen, humano…?
Tudo isto lhe veio à memória num segundo apenas, antes de murmurar sem qualquer convicção.
– Do convento.
– Do convento? – Perguntou o homem.
Olhou para ele. Tinha a cara coberta com uma máscara. Só adivinhava o sentimento das suas frases pelo tom da voz. – No convento estamos nós. – Disse o homem num tom exasperado e ao mesmo tempo ameaçador.
– Estamos? Perguntou.
– Claro. Não vês todos estes aqui.
Olhou à sua volta. A escuridão que até aí obnubilara as suas respostas tornou-se então menos densa e pôde percorrer as paredes com o olhar. Estava de facto num convento ou algo parecido, sim, via os claustros, onde, à luz azul vultos encostados às paredes baixavam o olhar, os rostos inexpressivos pelas máscaras.
De um segundo andar alguém assomou à balaustrada e olhou fixamente para ele.
– Quem és tu? – Perguntou a voz lá do alto, sem mexer os lábios. O som repercutiu-se nos arcos e abóbodas, bateu nas paredes, ricocheteou como se estivesse dentro de um sino ou de um poço.
O homem máscara olhou para ele inquiridor.
Ele respondeu.
– … hã… eu sou… – e depois disse o seu nome. Como lhe soou estranho o nome. O homem empoleirado na varanda, parecido a um corvo, disse, enfático:
– Espera aí.
Ele engoliu em seco. Junto à parede da esquerda alguém se levantou e saiu da sombra. Dirigiu-se-lhe, enorme na sua capa que agora, à luz azul, parecia roxa, o capuz cobria-lhe a testa. Os olhos eram apenas duas fendas. A boca inexistente. Ouviu.
– Não sabes que tens de cobrir a cara? Aqui não há sorrisos nem lágrimas.
Levou instintivamente as mãos ao rosto. Sentiu a pele seca, escamosa. O grupo à volta era cada vez mais numeroso. Tentavam tocar-lhe. Mas podia apenas ser impressão. O que é que ele sabia? Os pensamentos era tão vagos como o éter. Tentou concentrar-se. Por que é que estou num convento?


O que é que me aconteceu?
Tentou lembrar-se outra vez do labirinto: corredores e mais corredores, escadas, becos sem saída, memórias aprisionadas e finalmente aquele pátio.
Podia já ter estado ali. Embora nada lhe fosse familiar. O único rosto de que se lembrava era do homem do saco. Olhou para cima. O homem da varanda já não estava lá. Decidiu esperar. Não era boa política contrariar uma máscara. Encostou-se à parede como os outros. À sua volta aglomeravam-se máscaras religiosas que pareciam cheirá-lo. Isto fê-lo aperceber-se de um doce cheiro a pêssego e sémen que havia no ar. Porquê sémen?
Dez minutos depois a agitação à sua volta cessou e decidiu sair.
O homem já tinha mais que tempo de ter descido. Os vultos das máscaras, pressentindo a intenção, começaram a perguntar todos ao mesmo tempo, “Onde vais? Não nos deixes aqui? Não podes sair. Se entraste não podes sair. Espera”.
Mas ele já não ouvia nada.
À direita um enorme corredor com paredes amarelas-creme espraiava-se com um tapete vermelho-língua até perder de vista. Ao fundo, uma janela. No exterior, nuvens-rosa, como num pôr-do-sol. O contra-luz da janela recortava as inúmeras figuras que nele caminhavam. Apressou o passo. Ouviu as advertências das máscaras cada vez mais longe e sentiu o cheiro mais ténue.
Antes da janela, virou à esquerda. Abriu uma porta e desceu três lances de escadas mal iluminadas. O silêncio era total agora. Abriu outra porta e entrou numa sala de espera: na parede um mostrador electrónico piscava o número 67. Ouviu-se um silvar e de seguida piscou o 68. Alguém se levantou. A sala ficou quase deserta. Para além de dois vultos à esquerda, sentados a um banco. Aproximou-se deles. Desta vez não usavam máscaras, mas os rostos eram… iguais. Olharam para ele e depois para o distribuidor de senhas: ele tirou uma. Era o número 69.
Ouviu-se um silvar. A porta abriu-se e ele entrou.
Atrás da secretária, sentado num cadeirão de pele preta, o homem da balaustrada.
– Ah! – Exclamou o homem sem olhar. – Bem vindo. Há algum tempo que o esperávamos. Tardou mas chegou. É o que interessa. Nunca é tarde para aprender.
– Aprender?
– Claro. Por que acha que aqui está?
– No convento? – Perguntou ele, agarrando-se à única coisa que sabia.
– Se lhe quer chamar convento… cada um é livre de…
– Não é um convento?
– Digamos que não é um local de reclusão. É apenas uma escola.
– Escola?
– Se quiser.
– E as máscaras?
– Quais máscaras?
– Lá em cima. Aqueles homens disseram que eu não podia mostrar…
– O quê?
– O rosto.
– Acreditou neles? – Perguntou o homem com malícia. – Usam máscaras apenas porque se esqueceram de quem eram. Nada de especial. Acontece a todos.
– Então não estamos num convento?
– Não.
– Eu também já me esqueci de quem sou?
– Já.
– Por que é que não tenho uma máscara, então?
A pergunta parecia-lhe óbvia. Agarrava-se à lógica da retórica para firmar a sua posição. Tentava ganhar tempo.
O homem sorriu atrás da secretária, recostou-se na cadeira, tirou os óculos e olhou para ele.
– Você é inteligente.


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FF @ 03:35

Sab, 24/03/07

 

da família do eyes wide shut? não sabia que também andavas na esfera blóguica, e pelo Miguel Silva não ia lá. Já o teu perfil não engana ninguém ;-)
Abraço
F