Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 16:14

Dom, 25/01/09

A tarde avança em rios de chap-chap

Dispo a roupa

Revelo os meus ossos

O nome arde-me no cérebro

Tira-me do sério

A loucura é ao virar da esquina

 

Resta-me a beleza de uns olhos

A tirania desse fascínio

O gozo da faca no flanco

Da velha e vibrante vertigem do vermelho

Da carne branca e leve como uma vela

Do silêncio alto e serôdio de uma nuvem

Um traço de cinzento no fim da tarde

 

O eco dos pingos no chap-chap do pátio

Abre-me ao meio, fixa-me no tempo que tenho

A única coisa que é realmente minha

Se ao menos soubesse o que fazer com ele...

 

A minha cabeça revolve a areia do passado

Num turbilhão generoso e calmo

É o frio que me sobe pelos ossos amarelos

Mordo a memória movediça dos teus passos

Passo ao lado da praia de verão onde

A lua iluminava os nossos sexos expostos

Vejo corpos, uivos, segredos sinceros

A eternidade acena-me com o seu pano esfrangalhado

De um sorriso terno e rectificador

Eu dirijo-me para ela

Certo do dever cumprido

Eu, o traidor de mim próprio

O homem do gesto adiado

Do grito sempre pronto

Um megafone do destino

Rouco como um cantor de blues

Improvisado nas veias de um tempo já morto

Guardado na aldeia do meu cérebro


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