A tarde avança em rios de chap-chap
Dispo a roupa
Revelo os meus ossos
O nome arde-me no cérebro
Tira-me do sério
A loucura é ao virar da esquina
Resta-me a beleza de uns olhos
A tirania desse fascínio
O gozo da faca no flanco
Da velha e vibrante vertigem do vermelho
Da carne branca e leve como uma vela
Do silêncio alto e serôdio de uma nuvem
Um traço de cinzento no fim da tarde
O eco dos pingos no chap-chap do pátio
Abre-me ao meio, fixa-me no tempo que tenho
A única coisa que é realmente minha
Se ao menos soubesse o que fazer com ele...
A minha cabeça revolve a areia do passado
Num turbilhão generoso e calmo
É o frio que me sobe pelos ossos amarelos
Mordo a memória movediça dos teus passos
Passo ao lado da praia de verão onde
A lua iluminava os nossos sexos expostos
Vejo corpos, uivos, segredos sinceros
A eternidade acena-me com o seu pano esfrangalhado
De um sorriso terno e rectificador
Eu dirijo-me para ela
Certo do dever cumprido
Eu, o traidor de mim próprio
O homem do gesto adiado
Do grito sempre pronto
Um megafone do destino
Rouco como um cantor de blues
Improvisado nas veias de um tempo já morto
Guardado na aldeia do meu cérebro