Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 15:35

Dom, 10/06/07

BOB DYLAN

Embora Zappa tenha sido inicialmente, em termos de som, inspirado pelo R&B dos negros e pela vanguarda clássica, os primeiros sucessos de Bob Dylan foram reveladores do ponto de vista da publicidade e da política.
“Subterranean Homesick Blues” de Dylan era um disco portentoso. Quando o ouvi pus-me aos saltos dentro do carro e depois quando ouvi o outro a seguir, “Like a Rolling Stone”, quis desistir da música porque senti que se isto vingasse e fizesse o que era suposto fazer eu não precisava fazer mais nada. O disco vendeu, mas ninguém respondeu de maneira adequada. Deviam ter ouvido e ter dito, “Ei, isto até passou na rádio! Esperem lá um bocadinho, temos oportunidade de dizer alguma coisa, 'tás a perceber? A rádio é para a usarmos como arma.” Como isso não aconteceu fiquei um bocado desiludido. Pensei, bom, caraças, talvez precisem de uma ajudinha.

Gostei das letras porque achei que eram directamente justas e fui encorajado por coisas destas poderem passar na rádio – e também porque havia muito para escolher na onda média da rádio. Disse, se isto é difundido, se é popular e vende, então pode iniciar um movimento muito importante. Mas não o vi concretizado da maneira que esperei.
Tem de se ter consciência do entusiasmo inicial de Zappa para se compreender o pequeno beliscão de “Flakes” em Sheik Yerbouti, onde Adrian Belew, com uma voz à Dylan, canta uma “canção de protesto” por o carro não estar pronto a tempo, ou para se entender a resposta de Zappa quando Dylan lhe pediu para produzir um álbum: em 1977, Dylan foi à casa de Laurel Canyon, sem se anunciar – “estava um frio de rachar, não tinha casaco e trazia a camisa aberta” – sentou-se ao piano e tocou onze canções (que mais tarde seriam Infidels). “Disse-lhe que ele devia vender as canções ao Giorgio Moroder. Ele faria uma base de sintetizadores e o Bob tocava guitarra e harmónica por cima. Seria fantástico!”
Ao associar a música de Dylan ao rei do produto disco, Zappa fez pouco da empacotada “humanidade” de Dylan – mas são agressões de um fã traído (em Joe’s Garage a batida disco simbolizava a punição infligida pela indústria discográfica nos indivíduos). Apesar dos desenvolvimentos posteriores, o efeito inicial de Bob Dylan foi electrizante. A voz desbragada, não clássica, deu a Jimi Hendrix coragem para cantar nos seus discos. Apesar das cáusticas recordações de Zappa sobre a predilecção dos anos 60 por folk-rock em vez de blues, o folk eléctrico de guitarra abrasiva e real dos primeiros sucessos de Dylan – e as letras políticas – abriram espaço para bandas como os Mothers.



Xavier @ 22:51

Dom, 10/06/07

 

Bob Dylan deve ter ficado bastante despeitado (lixado) com a resposta de Zappa. Pode ler-se em ZAPPA - Wiki Jawaka (http://wiki.killuglyradio.com/index.php/Bob_Dylan) o seguinte: "Dylan did not get in touch with FZ after that; "Infidels" was produced by Bob Dylan & Mark Knopfler and released in 1983."

Miguel Silva @ 14:47

Seg, 11/06/07

 

Acho que por essa altura o Frank Zappa estava demasiado ocupado para se poder dedicar à obra de outro músico. A resposta dele é bastante bruta e revela que Dylan já não era um músico do seu agrado. É bom recordar que o Bob se tinha recentemente convertido à religião, o que não abona a seu favor. Também o facto de ter percorrido outros famosos para o reabilitarem através da produção do disco: Bowie, Costello, mostra que ele queria simplesmente um nome para poder voltar à ribalta. E FZ cheira este tipo de coisas à distância.
abraços X