Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.

Pedro Marques @ 01:16

Ter, 15/05/07

Se há uma coisa que os meios de comunicação de massas como a rádio, televisão e computadores não podem substituir nunca são os livros. É verdade que as pessoas se desabituaram de ler. As razões para o facto são muitas e não as vou analisar aqui. Mesmo assim ainda há alguns milhões de pessoas em todo o mundo que acham que o livro pode ser uma fonte incomparável de prazer. Porquê? Porque através da linguagem e da história se podem conjurar imagens, emoções, intrigas, morais, conhecimentos, etc. Muitas vezes se diz que o prazer que se obtém de um livro é individual e que cada pessoa faz a sua própria história. Nada mais verdadeiro. Mas, e a leitura de textos de teatro? Como classificar essa experiência?

A escrita para teatro é o parente pobre da literatura. Quase ninguém lê textos para teatro. Contudo, quando se fala do melhor escritor de todos os tempos, é certo que grande percentagem das pessoas dizem: William Shakespeare. Ora, as grandes obras deste escritor foram escritas para o teatro e nem por isso deixou de ser grande, reconhecido e estranhamente actual.

O propósito aqui não é analisar a obra de Shakespeare mas sim chamar a atenção para um género literário que caiu em desgraça pelo simples facto de as pessoas já não lerem teatro. Por que razão? Talvez porque um texto dramático é uma espécie de receita culinária e está para a prática teatral como uma receita está para a cozinha ou uma partitura está para a música e as pessoas se sentem excluídas pelo carácter técnico – as instruções cénicas são muitas vezes dissuasivas e as pessoas não se conseguem envolver na acção. Mas devemos perceber que a cor das palavras, o ritmo delas, a sua emoção, só serão totalmente apreendidos quando forem lidas em voz alta – tal como na poesia.
A literatura dramática é por isso uma espécie diferente de literatura. E um livro de teatro é um livro que só poderá ser completamente “lido” quando for lido e ouvido. É isto que proponho com a primeira parte deste Manual de Instruções Para A Leitura de Textos de Teatro.
Há cem anos a prática de ler peças de teatro em casa, ao serão, era relativamente comum. Não havia cinema nem televisão e as pessoas faziam as suas próprias encenações amadoras, criando colectivamente mundos alternativos e histórias. Acho que não há razão para que não possamos fazer o mesmo hoje em dia. Por isso aqui ficam algumas primeiras sugestões:
Peguem num livro de teatro, aconselho a colecção de livrinhos de teatro dos Artistas Unidos por serem livros pequenos, de fácil manuseamento, e por as peças da colecção serem curtas e às vezes com poucos actores. Peguemos no nº 1 da colecção com peças do autor italiano Spiro Scimone. Escolham a peça “A Festa”. Tem três actores. Óptima para fazer em família. Assegurem-se que as pessoas escolhidas têm um relativo à vontade a ler em voz alta. Distribuam as personagens entre si: um pai, uma mãe e um filho. Nada mais fácil. Escolham uma das pessoas para ler as indicações cénicas sempre que acharem necessário. Tirem fotocópias do texto ou, melhor, comprem três livros (são baratos, custam 5 euros cada, apenas). Sentem-se à volta de uma mesa e, sem pretensões de interpretação, comecem a ler em voz alta. Cada pessoa lê o texto da sua personagem. Preocupem-se em ler claramente o que está escrito. Tentem visualizar colectivamente o espaço onde se passa a acção – neste caso, a cozinha de uma casa.
Prossigam tentando cumprir as indicações cénicas que são meramente técnicas como “pausa” ou “silêncio”. Essas indicações podem parecer muito técnicas mas se forem executadas com rigor fazem com que a tensão entre as personagens ganhe espessura. Esta peça é boa para começar este trabalho porque as personagens nunca falam durante muito tempo e a situação dramática é clara.
Quando chegarem ao fim da peça, se a leitura foi fluente, terão vontade de a tornar a ler, para corrigir entoações, mudar ritmos nos diálogos, criar silêncios entre as falas das personagens. Nessa altura estarão a entrar no domínio do trabalho do actor e do encenador. É exactamente nesta altura que actor e o encenador começam o seu trabalho. Quando tornam a ler a peça. É aqui que todos os significados começam a saltar da página. É aqui que começamos a comover-nos e a ouvir os sentimentos e as cores, é por esta altura que não conseguimos andar na rua sem conseguirmos deixar de pensar nas personagens. É aqui que nos começam a entrar na carne. Talvez seja nesta altura que quem não quer mais que a leitura de uma história pode deixar de ler e passar a outra coisa. Mas pelo menos terá viajado colectivamente para um mundo diferente. As pessoas que leram, não o fizeram com um romance que normalmente é lido em silêncio por uma única pessoa, mas sim com uma peça de teatro que foi escrita de propósito para ser lida e vivida por várias ao mesmo tempo. A literatura dramática não é apenas para os profissionais de teatro mas sim por quem quer que queira viver uma experiência colectiva. Lembrem-se que o teatro é na sua essência imaginação colectiva. Se quisermos fazer um paralelismo simplista com o desporto, digamos que ler um romance é como jogar ténis (o prazer é individual) e ler uma peça de teatro é como jogar futebol ou vólei…
Se já possuírem alguma peça de teatro em casa, ou se gostarem em especial de alguma, tentem com ela, mas lembrem-se de que as peças com um grande número de actores obrigam a uma grande ginástica dos leitores porque será sempre difícil juntar treze ou catorze pessoas em casa. Comecem com coisas fáceis e vão lentamente adicionando novos elementos.


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Xavier @ 02:48

Ter, 15/05/07

 

"Talvez porque um texto dramático é uma espécie de receita culinária..."
Interessante! Nunca pensei muito nisso. De facto só li uma peça de teatro inteira em toda a minha vida: Hamlet.
Era bastante jovem, falava-se muito de Hamlet nessa altura e intrigava-me a frase: "Há algo de podre no reino da Dinamarca." Mas então Shakespeare não era Inglês? E que diabo queria dizer solilóquio? "Ser ou não ser, eis a questão", era a única parte que eu ouvia desse tão famigerado solilóquio. E Hamlet era louco?
Então resolvi saber do que falavam os que me rodeavam e comprei uma tradução da peça (não sei se boa ou má, não tenho como comparar).
Foi uma tremenda confusão para mim, na altura não tinha bases culturais suficientes, mas fiz um esforço quase titânico e li tudo.
Só quando "vi" a peça, primeiro em filme e depois ao vivo, mas em português, é que começei a compreender o que estava escrito.
Confesso que não voltei procurar ler peças de teatro, pensei sempre que, como na analogia da receita de culinária, eram para serem representadas, vistas, não lidas.
Agora este teu texto voltou a dar-me vontade de "experimentar" ler teatro de novo. Prometo que farei pelo menos outra tentativa.

Miguel Silva @ 20:30

Ter, 15/05/07

 

Até há muito pouco tempo atrás não se podia ler as obras de Shakespeare a não ser em traduções do início do século XX feitas pelo nosso rei (!) Agora há a Campo das Letras que está a traduzir a obra completa das peças. Finalmente se pôde ler as peças com algum grau de fidelidade. Mesmo assim continuam por ser editadas muitas peças... a literatura dramática continua a ser muito mal tratada... Boa Xavier, se vais ler, lembra-te que é muito mais divertido se o fizeres com mais pessoas. Se não tiveres com quem fazê-lo eu moro no Estoril.... :-)