Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:01

Sex, 27/01/12

A sirene primaveril da canção transgressora –

Levemo-la na sua incandescente cera

Saturada de cambiantes

Dos quais somos herdeiros

Hart Crane[1]

 

 

PORQUÊ MARX, PORQUÊ FREUD

 

Estes escritos, publicados sob o pseudónimo Out to Lunch [2], têm origem em vários periódicos de vanguarda do início dos anos 80. O trabalho de Frank Zappa servia para analisar e ao mesmo tempo denegrir as conquistas da literatura Ocidental, desde os românticos até Henry James, um método que se chamava as dialéticas negativas das habilidades do caniche. Embora escrito de um modo que atraía mais facilmente os literati que os fanáticos do rock, o parágrafo de abertura – “Frank Zappa: As Dialéticas Negativas das Habilidades do Caniche, Parte Um" – ainda resume, para mim, as alegrias e horrores de analisar Zappa e a sua arte.

 

Ao escrever sobre Zappa comprometer-me-ei com determinadas relações da engrenagem da racionalidade aceite, não quero parecer impressionista ao escrever, nem fazer arte pela arte; a liberdade é sempre constrangida pela necessidade de termos de descer a montanha. Por outro lado, odeio a entediante e ruidosa preocupação do alpinista e as suas auto-justificações, quando a linguagem se torna apologética ela já é corrupta[3] e a linguagem dos zappólogos não é exceção. As descobertas dos zappógrafos não devem ser abandonadas a encarquilhar nas águas da religião para, como bengala, serem transformadas em ilusórios cestos coletores de moralidade forjada. Pelo contrário, as descobertas devem ser usadas para atenuar a auréola inflamada de ansiedade visceral que a reprovação espalha até aos nossos mais obscuros pontos de prazer. A aplicação direta deste unguento, contudo, só encrava o motor, tal como o cinto de segurança que encolheu e ficou mais pequeno.[4] À semelhança da psicanálise, o objetivo é notificar uma cura a partir de dentro e não construir uma cerca de constrangimentos morais. Mas, ao contrário das perversões domesticadas da psiquiatria, a zappografia não pensa regressar aos excessos do motor 2-4-6-8 universal de transmissão por cinto. Desembraiamos, porque tem de ser, atiramos todas as propulsoras intenções aos ventos e, se as peças começam a cair aos bocados, então é porque não valeu a pena consertá-la. Não é que vá evitar algum “risco” envolvido na escrita, pode-se sempre riscar coisas. Cada vez que um tema de Zappa prova a sua valia, percebemos, seja como for, que todo o processo desempenha um papel num microcosmos: dia a dia, o significado e a confiança recoagulam. É errado enfrentar as inevitáveis pressões que levam à justificação, mas isso não quer dizer que não cheguemos lá no fim, ou que não as tenhamos enfrentado antes. Eu prefiro entrar pelas traseiras e ocupar o inimigo por dentro. A estratégia mais primária reside em pegar nas irrelevâncias mais comuns, estruturas que não possuem nenhuma possibilidade de analogia – como os dentes. Mas antes dessa iluminação, a continuidade conceptual do caniche acena-nos. Irrelevância ainda mais comum, porque a sua confiança grosseira começa a assemelhar-se às percepções da caixa de velocidades no coração do motor.[5]

 

O original prosseguia, comparando “Cheepnis[6] de Zappa a “Kubla Khan” de Samuel Taylor Coleridge – mas de certeza que a generalidade dos leitores não lucraria nada com tal espécie de preâmbulo.[7]

Para além de se preocupar com Frank Zappa e os seus concertos, vídeos e discos, as dialéticas negativas das habilidades do caniche também lhe aplicam as visões de Karl Marx e Sigmund Freud. Embora tenham sido, supostamente, substituídos pelas escolas de pensamento pós-tudo,[8] as ideias de ambos continuam a brilhar ardentemente, talvez porque aquilo de que falavam – capitalismo e família – ainda estejam no meio de nós. Embora se diga muitas vezes incompatíveis, Marx e Freud partilham características fulcrais: materialismo, hostilidade em relação à religião, obstinada insistência na capacidade da razão humana para apoiar e mudar tanto o mundo como a mente. Ao seu jeito, não erudito, Zappa mantém uma similar crença na razão, recusa-se a permitir que as normas sociais comprometam uma visão de como as coisas podiam ser. Marx desejava fomentar a autoconsciência política da classe trabalhadora; a palavra de ordem de Freud, “o ego estará onde o impulso instintivo estiver,” mostra uma confiança na consciência que está muito longe do pessimismo de Nietzsche e dos seus herdeiros parisienses. Ao desembaraçarem-se dos mistérios e do inconsciente, Marx e Freud são frequentemente condenados pelos que defendem a ordem atual – mas para mim isto indica apenas uma não verdade no modo como as coisas são geridas, tais condenações não denigrem as suas teorias.

Se alguém envolvido na cultura de massas parece apontar para uma não verdade como as coisas são geridas, essa pessoa é Frank Zappa. Obstinado, irredutível, opositor, a sua música é uma disjunção contínua, um Dada permanente. As suas políticas explícitas – lealdade à unidade familiar e honestidade nos negócios mais pequenos – estão tão longe da psicanálise radical ou do marxismo quanto conseguirem imaginar, mas é precisamente porque ele não devolve tais preceitos filosóficos ao nível da representação que a sua música proporciona um malte convincente para o pensamento radical. Zappa produziu uma miscigenação de elementos altos e baixos que envergonham a retórica da arte pop e o pós-modernismo.

A crença de Zappa no conhecimento, que é um golpe à opressão, é ilustrada por este diálogo com um cristão born again durante uma audiência sobre “pornografia no rock” no Senado dos E.U. Poderão imaginar o sentimento das palavras pelo tremor incaracterístico da voz.

 

CRISTÃO: Algumas destas coisas não são relações sexuais normais.

FZ: Não quer dizer que tenhas de as fazer. A informação não te mata...

CRISTÃO: Elas são demasiado novas para saberem a diferença.

FZ: As crianças aprendem a ver as diferenças ao receberem informação que conseguem juntar e depois selecionar com a tua ajuda de pai. Se não as fizeres saber estas coisas, crescerão e serão ignorantes.

CRISTÃO: Gostava de os manter ignorantes de certas coisas. [Aplauso em massa.]

FZ: Uma pessoa que prefere que as crianças sejam ignorantes está a cometer um grande erro – porque nesse momento, elas podem ser vítimas.[9]

 

O colapso do comunismo na Europa de Leste levou à morte do estado socialista como ideologia viável para a classe média liberal. Enquanto o vácuo que isto criou é preenchido por uma nova panóplia de irracionalismos de uma nova era, o apelo de Zappa para a razão é tão raro como oportuno.



[1] Hart Crane, “For The Marriage of Faustus and Helen”, 1926, The Complete Poems and Selected Letters, ed. Brom Weber, 1966, p. 31. Tradução de P.M.

[2] Out To Lunch, “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part One’, A Vision Very Like Reality, ed. Peter Ackroyd, Ian Patterson, Nik Totton, Dezembro 1979; “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part Two’, Reality Studios, ed. Ken Edwards, Vol. 5, Nos. 1-4, 1983; “Erogenous Sewage: Poodle Play Explores the Work of Hart Crane’, Heretic, ed. Paul Broen, Vol. 1, No 2, 1980; Out to Another Lunch Party: Plato’s transcendental sofa grounded in material hide by revelations concerning frightened phallicism, spatial screaming and nasal spores”, Equofinality, ed. John Wilkinson, Rod Mengham, No. 2, 1982; So Much Plotted Freedom: The Cost of employing the language of fetishized domination – poodle play explores the sex economy of Henry James” lingo jingo, Reality Studios, Occasional Paper, No. 6, 1987; “Secret Hungers in Horace”, Horace Whom I Hated So, ed. Harry Gilonis, 1992; Secret Hungers in Horace: The Negative Dialectics of Poodle Play Performs a Psychoanalgesis on Horace, Form Books, Occasional Paper, No. 1, 1993.

[3] Theodor Adorno and Max Horkheimer, The Dialectic of Enlightenment, 1944, p. 219.

[4] Frank Zappa, “Florentine Pogen’, One Size Fits All, 1975.

[5] Out To Lunch, “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part One’, A vision Very Like Reality, ed. Peter Ackcroyd, Ian Patterson, Nick Totton, Dezembro 1979, p. 22. Estas palavras também serviram como texto para um concerto para leitor, orquestra e guiterra eléctrica de Simon Fell, Four Slices of Zappa, 1992.

[6] Frank Zappa “Cheepnis”, Roxy & Elsewhere, 1974.

[7] Um preâmbulo que se estende ao resto do prefácio e aos próximos cinco capítulos. Os leitores que queiram passar à frente e ir ao âmago da questão, podem ver a discussão sobre “cuecas” na secção intitulada “Roxy & Elsewhere” no Capítulo 5: Da Bizarre à Discreet.

[8] O termo pós-modernismo é notoriamente vago, mas apesar disso foi bem resumido por Anna Copeland: “Uma reacção a tradições intelectuais que tentam explicar o mundo usando conceitos universais como os modelos freudianos da personalidade, teorias marxistas da economia, ou as explicações causa-efeito usadas pelos historiadores, o pós-modernismo vê a vida no final do século-vinte como uma série de acontecimentos desconexos, um self-service de narrativas ou dissertações que competem para obter atenção.” “Two Cultures: A Reader’s Guide”, Omni, Vol. 16, No. 2, Novembro 1993, p. 44. É contra pós-modernismo deste jaez que as habilidades do caniche se opõem (juntamente com Alex Callinicos; vejam o seu Against Postmodernism: A Marxist Critique, 1989).

[9] Audiência no senado sobre “pornografia no rock”, 1985.