Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 11:18

Qui, 30/06/11

As eleições do princípio do mês em Portugal marcaram uma viragem à direita do país. Mais grave ainda, mostraram-nos que 85% dos representantes do povo são a favor do Memorando assinado com a Troika (BCE e FMI). Por isso, estamos todos agarrados ao cumprimento de várias medidas de austeridade, descidas de salários, aumento de impostos, etc, sempre as mesmas medidas dirigidas aos mesmos. Na Grécia vemos aquilo em que o nosso país se vai tornar daqui a um ano se cumprirmos estas medidas cegamente sem ter em atenção o crescimento económico.

 

Portugal foi tomado de assalto pelos partidos do regime.

Pelos partidos políticos que venderam, retalharam, sufocaram, estriparam o país em sucessivos governos desde, pelo menos, 1986 - desde aquela nova oportunidade que se chamava CEE. Esses partidos são responsáveis pelo estado calamitoso a que o país chegou. Mas, dito isto, devemos também perceber o que significa esse estado de calamidade. Este medo crescente, esta pressão constante tem uma origem apenas, e chama-se CAPITALISMO e a sua ORDEM FINANCEIRA. Reparem que não digo "capitalismo selvagem" ou "desregrado" ou qualquer outro eufemismo com que costuma ser baptizado para designar a selvajaria do mundo de hoje. Não, falo do Capitalismo que tem por base o "lucro" (filho de Adam Smith e outros economistas criminosos) e o nosso sistema financeiro que destruiu a pouca economia que ainda mantinha uma relação mais ou menos clara com o TRABALHO. Hoje em dia, o trabalho realizado não tem nada a ver com o preço dos produtos. Em Portugal, como no mundo, o que frutifica são os produtos financeiros, a (mentira) da publicidade, o esquema jurídico e policial que mina as instituições, sejam elas quais forem, a fama desportiva e artística completamente deslocada da realidade, desde os ordenados milionários do Ronaldo aos prémios chorudos de Hollywood. Aquilo que medra, hoje em dia, em geral, é a mediocridade das relações das pessoas, completamente afastadas e destituídas da sua razão de viver. Pessoas normalmente bem formadas, educadas e civilizadas, tornam-se em animais sedentos de competição dependendo do sítio onde se encontram, dependendo dos seus "interesses" legítimos.

 

É neste caos de relações destruídas, de pessoas e instituições, estados e organizações internacionais, que temos de salvar a Grécia ou bombardear a Líbia, temos de pressionar o Irão e beatificar Israel, é neste vórtice que torna o nosso mundo também tão interessante que temos de discernir aquilo que nos mais convém e lutar por aquilo em que acreditamos. É isso que faço todos os dias. É isso que faço neste momento.

 

Um blog é aquilo que as pessoas que o lêem fazem dele e não aquilo que o seu criador quer que ele seja. Tenho a noção de que aquilo que escrevo tem pouco ou nenhum alcance na nossa sociedade portuguesa podre, mas nem essa céptica noção me leva a calar-me.

 

A nossa sociedade, capitalista, financeira, competidora é um embuste. Acho que é isso que quero dizer. Precisamos de uma nova economia, uma economia que seja mesmo "económica" e não como é agora, uma economia que "consome". Consumir o mais possível não é, nem nunca foi, economizar. Consumir com base na publicidade (enganadora) ou naquilo que nos dizem que temos de comprar (seja o sabonete para combater os vírus, seja os pepinos estragados, seja o antrax, etc.) só perpetuará a ordem multinacional dos produtos e encherá os bolsos daqueles que realmente mandam neste jogo viciado: os bancos centrais.

 

O meu conselho é: não acendam a televisão, não se deixem enganar pelo medo com que nos mantêm em rédea curta. Ignorem-nos. Forjem um mundo novo dentro da vossa casa e depois exportem-no para a rua, mas não se deixem enganar por aquilo que vos dizem os Marcelos e os Sousa Tavares e os pivots dos telejornais.

 

Falta pouco para irmos para a rua como os gregos. Mais exatamente um ano. :)


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