Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 16:33

Dom, 10/04/11

Ouvir um disco dos Radiohead pela primeira vez é sempre uma entrada no desconhecido, certo, a originalidade e genuinidade destes músicos está, em princípio, garantida, mas não é um desconhecido total. É, certamente, um desconhecido que se revisita: deixamo-nos levar pelos ciclos de bateria e outros instrumentos cuidadosamente preparados, a voz de Tom Yorke levanta voo nas mais pequenas frases melódicas, o baixo inventa novos retornos, as guitarras aparecem e desaparecem ao sabor do arpejo e da frase melódica simples.

A temática das letras é mais uma vez sombria, como quase toda a poética com que nos brindaram até agora. Pequenos feitiços, sombras, sonhos, sobrepõem-se a memórias que nos assombram, reflectem-se nas paredes das nossas vidas frenéticas como baterias programadas por computador. A voz de Yorke plana por cima de todo o edifício sonoro como se fosse uma ave de rapina, pronta a arrancar da terra que são as nossas vidas mais um pedaço de coração, ou, então, a plantar nela as raízes do sonho.

The King of Limbs, o novo disco dos Radiohead.

"Bloom" abre com uma sucessão de samples em contraponto rítmico com o baixo, quando a voz entra é como se Hammill tivesse aterrado na América do Sul. O contraste entre as melodias de Yorke e os padrões rítmicos obsessivos levam-nos para esses lugares onde trompetes dão lugar a sintetizadores em franca confraternização.

"Morning Mr. Magpie" leva-nos para as paisagens mais funk que os Radiohead nos conseguem oferecer, um monólogo de Yorke em jeito de desabafo contra uma suposta pega que lhe roubou a sua magia. Good Morning Mr. Magpie, how are you today? As baterias electrónicas e o baixo conjugam-se brilhantemente a meio da música, Yorke uiva delicadamente ao lado de harmónicos de guitarra.

"Little by Little": delicio-me com a guitarrinha vinda dos anos 60 que repete sempre a mesma frase melódica, o ritmo aproxima-se do Brasil, Yorke revela mais preocupações com os fracassos artísticos, a legitimidade e o "eu" psicológico.

O instrumental "Feral" abre com um ritmo de bateria das pistas de dança, um padrão frenético contraposto por vozes e outras percussões. A meio, um baixo sintetizado, meio sambado, toma conta do ritmo.

"Lotus Flower" leva-nos de volta às melodias de Kid A, as baterias electrónicas contrapõem-se com o seu tom de ameaça, uma frieza que reconhecemos em Zappa dos anos 80. É o amargo-doce de composições como "Everything In The Right Place" de Kid A. Yorke é mais uma vez invisível dentro do nosso bolso, numa alusão aos ipods, diz-nos que tem(os) um lugar vazio dentro do seu coração onde poderão ser plantadas as raízes de todos nós flores de lótus.

"Codex" é uma sucessão de acordes vindos dos anos 70 de puro deleite pela voz de Yorke, Richard Wright, talvez, em memória, pairando numa balada onde a voz wyattiana é magnificamente contraposta a um arranjo de feliscornes. A gravidade do piano revela o momento dramático de alguém a saltar do "fim para um lago límpido". O final introduz um arranjo para cordas que desagua na música concreta com que "Give Up The Ghost" se inicia. O refrão, "don't haunt me" ("não me assombres", algo que se diz a uma memória que nos persegue) é repetido continuamente, passando por todos os estados, deixando até de ter significado pela repetição, para o ganhar mais uma vez, no final, quando os violinos se sobrepõem ligeiramente à mistura de guitarras e vozes; um riff de guitarra, contraponto da melodia bela e inspirada de Yorke; violinos juntam-se em harmonia para um final entregue finalmente à música concreta.

"Separator" é a última música do pequeno disco dos "Radiohead", um ritmo pop mais relaxado, repetitivo, sem quebras, a sensação é de continuidade,  alguém cai de dentro de um sonho, as coisas parecem acabar mas na realidade estão prestes a recomeçar, os sonhos vão-se sucedendo até não se saber o que é sonho e o que não é. As guitarras vão sendo adicionadas apontando novos caminhos, para maior abertura harmónica que Yorke aproveita para criar melodias com notas inesperadas como pesadelos e tragédias ou pura simplesmente um sorriso sincero.

The King of Limbs é o oitavo disco dos Radiohead mas podia ser o quarto ou o quinto, a busca que se iniciou em Kid A ainda não terminou. Não é um álbum de passagem, ou menor, como podíamos pensar, nem uma consolidação das mesmas coisas, é apenas um desconhecido, que pode ser tão próximo como o aprender de um truque. O desconhecido não precisa de ser longínquo nem complexo, pode estar debaixo do nosso nariz, tal como o rádio que todos temos dentro das nossas cabeças.

Álbum surpreendente. Espero que venham cá a Portugal.