Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 02:16

Ter, 29/03/11

Tradução do artigo que saíu ontem no Sunday Independent, o mais importante jornal irlandês.

 

Caro Portugal,

 

daqui fala a Irlanda. Eu sei que não nos conhecemos muito bem, embora eu tenha ouvido dizer que alguns dos nossos governantes te acompanham no caminho da recessão.

E provavelmente vão continuar por lá por algum tempo. De qualquer forma, eu não quero intrometer-me, mas li acerca de ti nos jornais e parece-me que talvez te possa dar alguns conselhos acerca de onde estás e do percurso que te espera. Como diz agora a anedota, qual é a diferença entre Portugal e a Irlanda? Cinco letras e seis meses.

De qualquer forma, notei que estás sob pressão para aceitar um resgate embora os teus políticos se afirmem determinados para não o aceitar. Será, dizem eles, sobre os seus cadáveres. Na minha experiência isso quer dizer que vão receber o resgate em breve, provavelmente no domingo. Primeiro deixa-me explicar algumas nuances da língua inglesa. Uma vez que o inglês é a vossa segunda língua, talvez penses que as palavras ‘bailout’ e ‘aid’ significam que vais receber ajuda dos nossos companheiros europeus para ultrapassares as tuas actuais dificuldades. O inglês é a nossa primeira língua e isso era o que nós pensávamos que essas palavras significavam. Deixa que te avise, que não só este resgate, quando te for inevitavelmente forçado, não te vai ajudar a resolver os vossos problemas, como vai prolongar esses problemas para as próximas gerações.

Por este ‘favor’ vão esperar que te se sintas agradecido. Se quiseres procurar a palavra certa em português para ‘bailout’, sugiro que pegues num dicionário inglês-português e procures palavras como: ‘moneylending’ (empréstimo de dinheiro), ‘usury’ (usura), ‘subprime mortgage’ (hipoteca de alto risco) ou ‘rip-off’ (roubo). Todas estas dar-te-ão uma tradução mais precisa daquilo que te vai acontecer.

Percebi também que vais mudar de governo nos próximos meses. Perdoa-me que me permita um pequeno sorriso sobre isso. Fica à vontade, põe lá uma camada fresca de tinta sobre todas essas brechas na tua economia. Aproveita para apreciar o cheiro da tinta fresca enquanto ele durar.

Nós também arranjámos um novo governo e foi uma bela diversão durante algumas semanas. O que vais verificar é que o novo governo virá do meio de um sentimento de euforia das pessoas. O novo governo fará todo o tipo de promessas durante a campanha eleitoral, sobre como reduzir a dependência externa e sabe-se lá mais o quê, e a UE vai sorrir benignamente enquanto eles prosseguem a conversa fiada.

Depois, esse governo vai subir ao poder, vai começar por ir à Europa e atirar alguns números. Talvez até ganhem alguns eventos desportivos contra um velho inimigo, seja ele quem for, e talvez atraiam a visita de alguns dignitários internacionais como o Papa ou outros. Haverá um sentimento agradável no ar e toda a gente se vai refugiar nessa ilusão durante algum tempo.

E, Portugal, aprecia isso enquanto durar. Porque a realidade vai estar à espera para se voltar a intrometer logo que a diversão acalmar. A vantagem é que o preço do golfe se tornou muito competitivo por aqui. Provavelmente vai acontecer o mesmo aí em baixo, espero encontrar-te nessa altura.

 

Beijos, Irlanda.