Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:24

Dom, 19/12/10

"Depois de o ouvir não o conseguimos limpar da roupa. Deixa nódoa, como o café ou o sangue." Tom Waits


No dia 17 de Dezembro passado, morreu Captain Beefheart, pai da invenção do rock sem regras. Dizer que a música que ele fazia era experimental é reduzi-la a uma pesquisa académica, ler nos seus poemas apenas a influência da beat generation de Kerouac, Bukowsky e a pop de Warhol é negligenciar a importância extraordinária da sua obra que percorre as mais diversas áreas artisticas a que se dedicou - escultura, pintura, música, poesia.

Don Van Vliet nasceu em 1941, em Glendale, Califórnia, numa família de emigrantes holandeses. Cedo demonstrou brilhantes aptidões para a arte, começando por fazer esculturas e pinturas. Os pais, convencidos da sua precocidade, não o perturbavam, passando-lhe a comida pela entrada do gato, libertando-o para o seu mundo artístico. No liceu, tornou-se amigo de Frank Zappa, partilhando com este o amor pelo rhythm & blues. Na sua fase pré-Mothers, depois de comprar o Studio Z, Frank Zappa chegou a escrever um argumento de um possível filme, que viria a ser recusado, chamado Captain Beefheart vs The Grunt People.

Inicia a sua carreira na música com Safe As Milk em 1967, mas é em 1969 que grava aquele que é considerado uma das grandes obras-primas da música rock, blues, de sempre: Trout Mask Replica, produzido pelo seu amigo de escola Frank Zappa.

As histórias que rodeiam a gravação deste disco são inúmeras, desde as técnicas de gravação - os pratos e tímbales da bateria foram abafados com bocados de cartão, as estruturas harmónicas foram compostas por Beefheart umas horas antes, ao piano - Beefheart conta que nunca tinha tocado piano.

Durante os anos 70, Beefheart viria a gravar mais discos, que não ganhariam a reputação deste, mas o definiriam na área do delta blues, canções guarnecidas de poemas, onde o surrealismo brinca com os jogos de palavras e o dadaísmo irrompe a cada oportunidade. Terminaria em 1982 a carreira de músico para se dedicar à sua grande vocação de artista plástico. Ver aqui o filme que Anton Corbijn realizou sobre o seu trabalho.

Para trás fica uma obra na música que desafia todos os géneros por nunca admitir sequer a palavra género. A música dele é visceral, não se pode realmente definir em termos de etiquetas. Não é fácil de ouvir, nem ninguém pode esperar encontrar à primeira audição de um disco de Beefheart, algum tipo de apoio que lhe permita classificar a sua música.

É esse o grande trunfo dele - nada poderá alguma vez explicar o alcance de um verdadeiro artista. Nada consegue conter a verdadeira arte. Beefheart sabia disso, Van Vliet sabia disso. Nós sabemos disso.



metro madrid @ 16:59

Qui, 13/01/11

 

Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou estudando Português, eu não consigo entender tudo, mas quase! ;)

Pedro Marques @ 18:28

Qui, 13/01/11

 

O português não é muito difícil. Principalmente para os italianos que vivem em Madrid... :) Se quiseres perceber tudo tens de visitar Lisboa. É quase tão bonita como Madrid. Senão mais... ;)