Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 17:30

Ter, 26/10/10

1.

Éramos uns amigos reunidos num jantar ocasional. Daqueles jantares que não têm nenhuma razão especial. Não é um aniversário, não é um casamento, não é nada de especial, é apenas o prazer de se estar à volta de um computador a olhar para as fotografias do último casamento, as figuras tristes que fizemos, os risos que não se esconderam.

A lembrança do enrolado de carne e das abóboras-(menina)(?) com alho, no forno, ainda decantava nas nossas entranhas. Novos amigos se faziam, velhas amizades eram lembradas. Desenhos na areia eram trocados por vídeos comprometedores de personagens vindas dos anos 70, o vinho escorria por entre cervejas sem álcool.

 

2.

Umas horas antes o Jazz jorrava Coltrane pelas colunas, Stan Getz, Caetano (o trio de Rui Caetano).

 

3.

No mundo da música, o silêncio tem tanta importância como o som. Quanto mais esse equilíbrio entre a performance dos instrumentos e a sua ausência é perfeito, mais a música explora as suas capacidades de expressão, alternando a surpresa com a afirmação veemente, progredindo em uníssono, às vezes, por acaso, às vezes como se a viagem já estivesse escrita nas estrelas, outras vezes como se fossemos parar a um universo totalmente novo, onde as leias da física subitamente se alteraram (como se isso fosse possível).

A música é transcendental pelo seu carácter abstracto. Não há maneira de dizer coisas materiais e objectivas na música. Na música tudo é uma questão de balanço, de um gentil contraponto, de cores harmónicas diferentes, de melodias recorrentes, silêncios, pausas, de polirritmias súbitas, de uníssonos em catadupa, de escalas estranhas e por vezes cheias de cores, cromáticas de facto, interrompidas por mais pausas sabiamente calculadas, alternando com melodias que podiam ter vindo de uma história antiga que agora, invisível apenas para os olhos do tempo, permanecem despidas do seu conteúdo racional e aparecem-nos apenas como sons perfeitamente equilibrados. Histórias.

A música instrumental são histórias de sensações. Não há nada para nos fixar à terra, só temos de contemplar a profundidade dos vales harmónicos, a graciosidade das melodias, a invenção dos ritmos apenas sugeridos, logo contrariados pelo balanço rítmico, que ecoam a variedade de movimentos só vistos na natureza. Não sabemos realmente o que representam essas músicas, os títulos delas podem dar uma ajuda para aquilo que o compositor estava a pensar nessa altura, mas quantas vezes o nome da música não é aquele que acaba por ter? A música instrumental não tem nome.

 

4.

O novo disco do Trio de Rui Caetano Invisível é uma pequena maravilha da música portuguesa deste ano. Bernardo Moreira no baixo e Bruno Pedroso na bateria são os outros dois músicos para além de Rui Caetano no piano. Pode falar-se em influências jazzísticas no tipo de música que tocam, o espaço deixado à improvisação lá está para o confirmar, mas as melodias e harmonias do piano fazem-nos lembrar por vezes música popular portuguesa (ou não tivesse Caetano arranjado temas de José Afonso para Jacinta), outras vezes ecoam Pinho Vargas ou Brad Mehldau...

"A Voz dos Cântaros" tema de abertura, com um nome bem português, por sinal, é pretexto para uma melodia que se vai desdobrando até começar a multiplicar cascadas de contrapontos rítmicos com o claro e preciso baixo de Moreira e a surpresa e invenção de Pedroso. A improvisação de piano, cheia de ideias diferentes permanece em permanente diálogo com a bateria bem articulada, numa alegria de cântaros.

"Recorte Imaginário" mostra a veia mais jazz de Caetano, uma melodia angulosa e rápida resolve-se num walking acelerado, as coisas são vistas a grande velocidade, como se olhássemos para fora de uma carruagem de comboio com tudo o que é a vida a passar por nós sem termos tempo para fixar o tempo. Tudo é mudança e vertigem. Será esse o recorte imaginário de que fala o título da música?

Com a melodia de "A Fé Pintada" voltamos à atmosfera de "A Voz..." Aqui é o baixo de Moreira que começa por improvisar sobre a melodia, Caetano segue-o fazendo brotar das suas longas pinceladas melódicas belas e elegíacas frases.

O lado mais introspectivo do trio está reservado para "O Sonhador da Paz". Um lento desenvolvimento harmónico, a fazer lembrar a placidez de algum Pat Metheny (e vem-nos à cabeça Lyle Mays), desagua numa praia de piano solo, onde se assiste ao lento desagregar da melodia.

"Raízes do Ser" contrapõe uma melodia arábica a um ritmo latino, revelando as raízes de se ser português com invenção, o solo de piano é cheio de belas e longas melodias, passando de mão em mão pedaços de ritmo melódico, como quem vai de Marrocos ao Brasil em menos de um nano-segundo.

"Invisível" é o nome do disco e também deste tema. E é neste estranho 5/4 que Rui Caetano consegue jogar melhor o silêncio e o som criando aquele equilíbrio de que só a invisibilidade é testemunha. É um deleite para os ouvidos este tema que nunca se deixa fixar, fazendo uso do seu ritmo assimétrico, para desenvolver estranhas erupções de pratos semelhantes a intuições colectivas despoletadas pelo nada do som. A melodia é ela própria uma rarefecção, purificada até só se reduzir a duas notas que vão ecoando em diferentes tonalidades e cores.

"Súbito Silêncio" retoma o espírito mais jazz de "Recorte Imaginário" com um tema em walking rápido onde se pode ouvir um trio em perfeita harmonia, que caminha lado a lado corrigindo trajectórias, alternando lideranças, construindo pequenos castelos na areia ou nuvens de fumo.

Em "Frio Ao Toque" o trio aventura-se em mais um ritmo assimétrico, neste caso um 7/4, onde o tema obsessivo é esventrado numa improvisação livre que nega a atmosfera harmónica inicial. É o tema mais anguloso e complexo do trio, mas também onde melhor se nota a interacção e confiança dos músicos.

"Olhar Só" regressa às lentas melodias de "O Sonhador da Paz". A volúpia do tema, sublinhada pelo belo solo de Moreira, é como que uma despedida em jeito de "até já" numa música que nunca se impõe.

O trio de Rui Caetano não se põe em bicos de pés, apenas é, e ainda bem, uma golfada de ar fresco, um copo de água refrescante vinda de um cântaro num qualquer dia de calor, uma voz de um cântaro que nos faz pausar, apreciar a profundidade da música quando ela não tem quaisquer palavras.