Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:55

Dom, 11/07/10

Ao mesmo tempo que penso que o Estado devia ter uma política cultural clara e justa (afinal COMO é que se subsidia?), não posso deixar de pensar que aos artistas serve sempre a sua independência e que se o Estado não cumpre essa função então devem ser os artistas a fazer valer o seu trabalho. Sob pena de paralisação de todo o tecido cultural, como vamos assistindo no caso de Portugal - que Estado somos? Que país somos?

Desde os gregos, pelo menos, que o poder esteve ligado à arte, por aquilo que ela era, e não pelo dinheiro a ela associado como agora é, mas, essa ligação não é inevitável, nem, digamos sinceramente, muito proveitosa para os artistas (naquilo que diz respeito à sua arte). Prova disso foi o que aconteceu a determinada altura, ao mesmo tempo que o dinheiro ganhava um papel inusitado na nossa sociedade (a partir do fim do séc. XIX) os artistas foram percebendo que essa ligação era perniciosa - os vários movimentos das duas primeiras décadas do século demonstram-no.
O séc XX demonstra a ligação promíscua e desastrosa do poder com a arte - os filmes de propaganda nazis, soviéticos ou norte-americanos, p. ex. - até que chegámos a um ponto em que a arte TEM DE viver com o dinheiro (o novo poder). TEM DE jogar esse jogo, e aos artistas cabe a tarefa de demonstrar como essa sociedade baseada numa valorização absurda da economia é injusta, estúpida, obtusa e completamente obsoleta. Ainda que o dinheiro para comprar as tintas, contratar músicos e pagar película TENHA DE existir dentro de uma indústria.
É este o paradoxo dos artistas hoje em dia. TER DE lutar contra uma estrutura económica cruelmente brutal sem deixar de abdicar dela.
A meu ver, quanto mais depressa os artistas se libertarem da corda na garganta que é o dinheiro que vem do Estado, melhor. Eu não a quero. Não gosto de cordas ao pescoço, nem de gravatas, nem de qualquer tipo de acessório. Não devemos ter um discurso subserviente e miserabilista.
Quando os artistas forem totalmente livres será o Estado a pedir-lhes que se juntem, que os ajudem nas eleições, etc. é exactamente nessa altura que temos de lhes dizer: "Não queremos".
Não são os artistas que precisam do Estado, o Estado é que precisa dos artistas!