Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:47

Sex, 18/06/10

Já não sei quando é que tomei contacto com a prosa de José Saramago pela primeira vez. Nem me lembro qual foi o primeiro livro que li dele. Talvez tenha sido o Memorial do Convento, mas não tenho a certeza. O que sei é que fiz uma primeira tentativa, e fosse pela idade que tinha, fosse pela prosa sem parágrafos nem travessões, fosse pelo que fosse, desisti, até um dia começar a ler e não parar enquanto não tinha lido todos os livros que pude. Já não leio um livro dele há muito tempo. Aliás, muito dificilmente leio romances, hoje em dia.

Fiquei fascinado pelos mundos que ele conseguia criar quase sem querer. A escrita de José Saramago era repenicada, cheia de voltas e contra-curvas, vaidosa, política, altamente moralista, mas encerrava em si uma sinceridade a que só se podia aceder se se lesse com o coração aberto e com os ouvidos afinados para a ironia. Em Saramago há pouco humor, daquele humor fácil da piadola do Levanta-te e Ri, há a ironia imbatível de um livro como O Evangelho Segundo Jesus Cristo - talvez o meu livro preferido. Eu gostava do assunto abordado - com 21 anos quem não quer que nos contem uma história de Jesus Cristo diferente das mentiras da manjedoura do burro e dos Reis Magos?

Depois há A Jangada de Pedra com a sua ideia inusitada mas, quanto a mim, mal explorada (apenas um sintoma da sua ideia de Península Ibérica unida), mais nada. Há o Ensaio sobre a Cegueira, parábola gigantesca sobre um mundo buñueliano, onde os cegos são aqueles que não querem ver, onde a cegueira é metafórica, livro extraordinário a que o filme hollywoodesco não conseguiu dar dimensão. A História do Cerco de Lisboa é um dos livros menos lidos, mas, daquilo que me lembro um dos mais subtis e irónicos. A sombra do seu mestre Gonzalo Torrente Ballester vem-nos sempre à cabeça. Ele que traduziu a Saga/Fuga de JB. A mistura de fantástico e terreno fundem-se aqui como na obra de Ballester, mas onde Ballester nos deixa à mercê dos meandros das palavras, no meio de fugas amorosas e sexuais, Saramago deixa-nos as suas ideias políticas e morais.

Lembro-me de um dia me ter cruzado com ele no Largo do Rato e lhe ter dito qualquer coisa como "parabéns! gosto muito dos seus livros", ou coisa do género, de ele me ter sorrido sinceramente e ter seguido o seu caminho. Nessa altura pensei que ele era muito diferente daquilo que mostrava nas suas entrevistas. Nestas, aquilo que ele revelava era uma sobranceria irritante, uma demagogia que não se elevava à altura da sua prosa, um comunismo militante justo e sincero mas desadequado à sua posição de escritor. Ele colocava-se numa posição de altiva inteligência disposta a iluminar o mundo e afastá-lo das suas injustiças. Era este o Saramago que eu não gostava.

O Prémio Nobel em 1998 veio a confirmar os seus atributos mas também a polémica que mantinha com a sociedade portuguesa. O seu refúgio na ilha de Lanzarote, as polémicas declarações em 2007 numa entrevista ao Diário de Notícias onde dizia que Portugal só tinha a beneficar com a fusão com Espanha, etc. Era um homem que dizia o que pensava, ainda que aquilo que pensasse fosse muitas vezes aviltante ou politicamente incorrecto.

Com a morte de José Saramago morre também um país apoiado na sua glória de escritor. Aquele país contraditório, que o celebrava e atacava à vez, um país que nunca soube amar este homem que se dedicou muito tarde à escrita de romances. Durante os últimos vinte e cinco anos, José Saramago foi sempre a má consciência de Portugal, do alto do seu pedestal, sempre pronto a denunciar as nossas injustiças e parvoíces - e ele disse-o tantas vezes -, com ele morre a capacidade que tínhamos de lutar por utopias, esperanças, valores. Com ele morre o escritor-operário de Maiakowski.

O mínimo que podemos fazer é aprender com a sua tenacidade e lê-lo.

Até sempre José

 

Saramago.




Pedro @ 10:52

Seg, 21/06/10

 

Bom dia,

O Fora de Cena está novamente em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Boa continuação!

Pedro

Maria @ 12:27

Seg, 21/06/10

 

Excelente post!

Saramago foi tudo isso e muito mais! ...
Foi incompreendido por grande parte da população portuguesa. Mas todos os génios acabam por encontrar grandes resistências ... E ele foi mesmo isso: um génio!


Dylan @ 10:45

Ter, 22/06/10

 

José Saramago não era menos português por não pôr a bandeira à janela na véspera de um evento desportivo. Acima de tudo, a sua essência era ibérica. Convém dizer que só saiu de Portugal devido à ostracização de Sousa Lara, comprovada agora com o episódio político revisionista da não presença de Cavaco Silva no seu funeral. "Viagem a Portugal" é reflexo de amor e do encantamento que sentia pelo país, pela sua beleza e cultura, pela classe trabalhadora, espelhada na sua identidade, mesmo que isso significasse ir contra a ideologia do seu partido, contra a maioria religiosa, contra o politicamente correcto. Para o seu espírito inconformado, a morte é pouco relevante. Como diria Saramago, "o fim duma viagem é apenas o começo de outra".