Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 19:14

Qui, 13/05/10

Depois do assassínio de Carlos I, subiu ao trono português seu filho mais novo, Manuel II. A 2 de Fevereiro de 1908 realizou-se a reunião do Conselho de Estado. João Franco mostrou-se pronto a continuar no poder, mas os membros do Conselho exigiram categoricamente a dissolução do seu gabinete e a formação de novo governo com representantes dos dois principais partidos monárquicos, o regenerador e o progressista. João Franco foi destituído. Permitiu-se-lhe que deixasse Portugal. A formação do novo gabinete foi confiada pelo rei ao vice-almirante Ferreira do Amaral. No novo governo os regeneradores obtiveram as pastas da Justiça e das Relações Exteriores, cabendo aos progressistas as da Guerra e Finanças. Parecia que após a queda da ditadura se iniciava no país um período de tranquilidade. Continuaria por muito tempo? O jornal francês Le Journal des Débats, dando a este período o nome de «lua-de-mel» do governo de D. Manuel II, manifestava receio quanto ao futuro da Casa de Bragança.

 

O novo governo revogou uma série de decretos do ex-ditador, esperando dessa forma abafar o movimento revolucionário. Os chefes do Partido Republicano declararam que encaravam o assassínio de Carlos I como uma das etapas do derrubamento da monarquia. Nas eleições de 26 de Abril de 1909 para a Câmara dos Deputados os republicanos obtiveram apenas seis lugares, mas as suas posições no país fortaleciam-se continuamente. No dia que se seguiu às eleições, houve agitação na capital. Temendo manifestações revolucionárias o governo pôs nas ruas os soldados da guarnição militar de Lisboa. No mesmo dia 700 pessoas foram presas pela polícia.

No Verão de 1910 houve tentativas dos republicanos para a organização de uma revolta, mas todas elas foram sufocadas e muitos dos seus participantes presos e exilados. Prosseguiam porém os preparativos para a insurreição armada.

Nas eleições para as câmaras municipais de 1909 e para as Cortes no Outono de 1910 os republicanos foram apoiados pelo eleitorado nas grandes cidades. Estava a seu lado uma parte considerável do exército e da marinha, principalmente os sargentos. É bem verdade que o governo dispunha ainda de reservas para combater as insurreições armadas, mas já não havia possibilidade alguma de afastar as causas da crise de todo o regime monárquico, crise que se agravara.

No dia 3 de Outubro de 1910 o Partido Republicano organizou uma grande manifestação por ocasião da visita a Lisboa do presidente da República do Brasil. Neste dia elementos criminosos, incitados pelos monárquicos, assassinaram Miguel Bombarda, deputado republicano e orador muito conhecido no seio do povo. Este assassínio desencadeou uma onda de indignação. Às 4 da madrugada o povo começou a juntar-se na praça central da capital. À tarde começaram os choques com a polícia. Na noite do mesmo dia o Comité Revolucionário, criado pelo Partido Republicano, decidiu iniciar a insurreição armada.

O principal argumento a favor de uma tal decisão foi a notícia trazida por um dos chefes republicanos, o vice-almirante na reserva Cândido dos Reis, sobre a saída do cruzador Dom Carlos do porto de Lisboa a 11 de Outubro. Receoso da retirada da frota do porto de Lisboa, onde esta era o principal esteio da insurreição, o almirante insistia na necessidade de se iniciar o movimento de imediato. No dia 4 de Outubro de 1910, à 1 da madrugada, iniciou-se a insurreição armada em Lisboa. Além da marinha participaram dois regimentos, um de artilharia e outro de infantaria. Apoiados pela população da capital prenderam os oficiais que lhes eram mais odiosos e saíram das casernas (aproximadamente 300 homens com 9 peças de artilharia). Sem encontrar resistência por parte das tropas fiéis ao governo, os rebeldes ocuparam a Praça Marquês de Pombal e o Parque Eduardo VII. Para ali se encaminhava o povo vindo de todos os recantos da capital. Os marinheiros de dois cruzadores enviaram ao comandante da guarda do palácio real um ultimato, exigindo a rendição. O ultimato foi rejeitado. Depois de três tiros de aviso com granadas sem carga, as tripulações dos cruzadores começaram o bombardeamento sistemático do palácio real. Pouco depois da meia-noite, a 5 de Outubro de 1910, temendo a cólera popular, o rei fugiu num iate para a Inglaterra.

As tropas fiéis ao governo viram-se logo cercadas. Durante algumas horas procuraram resistir nas cercanias do palácio semidestruído.

A 5 de Outubro, pouco depois das 7 horas da manhã, a pedido do encarregado de negócios da Alemanha em Lisboa, foi concluído o armistício entre as tropas reais e os rebeldes. O encarregado de negócios alemão interviera porque, segundo ele, as acções dos marinheiros constituíam ameaça para os súbditos alemães. O povo dirigiu-se para a Praça D. Pedro IV para confraternizar com os soldados. Este foi um momento critico, já que correu o rumor de que o povo apoiava o governo. Muitos dos oficiais rebeldes queriam voltar aos quartéis. Colocou-se decididamente contra isso o comissário da marinha Machado Santos, um dos mais activos participantes da revolução, membro do Partido Republicano e representante da sua ala esquerda, que, aliás, não entrou na composição do novo governo. Machado Santos dirigiu um ardente apelo às tropas, pedindo-lhes que permanecessem onde estavam. Ao ver que seria inútil o prosseguimento da resistência, o Conselho Real deu ordem às tropas governamentais no sentido de deporem as armas.

A revolução vencera em Lisboa. Ela foi realizada pelo exército com o apoio espontâneo da população da capital. Na insurreição tiveram um papel muito activo os soldados e oficiais subalternos. A maioria dos oficiais estava vacilante, só se unindo aos insurrectos quando a monarquia vivia as suas derradeiras horas.

 

Nikolai Efimov. Site do PCP.