Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 00:26

Qui, 06/05/10

Puschkin, o meu boneco de peluche preferido, viajou para Itália à procura de calor.

Nem era meu. Sempre tinha vivido em países frios. Polónia, Bulgária, Estónia, República Checa. No último Verão foi a Moscovo, aventurou-se e escapou da bolsa da sua "companheira". Caiu da mala dela num dia de manhã. Ela, apressada, depois de dormir com ele, meteu-o na bolsa sem olhar e antes de entrar no elevador deixou-o cair. Puschkin já tinha decidido emancipar-se há muito tempo, aquela oportunidade pareceu-lhe demasiado tentadora. Deixou-se ficar. Quando caiu não disse ai nem ui. Deixou-se ficar. Ela entrou no elevador, ouviu-a dizer "откуда ты?", de onde vens? para um colega asiático que também descia e pronto. Ele ficou ali no chão. Desamparado.

Eu cheguei à entrada do elevador pouco depois concerteza, a fábrica abria muito cedo de manhã. Eu construía "aparelhos voadores". Foi há muito tempo. Ainda não havia a palavra "avião", ainda não tinha sido inventada. Mas nós trabalhávamos na fábrica. Nisso. Maneira de fazer aparelhos que voam por si próprios.

Quando vi Puschkin pela primeira vez, quando vi o seu pequeno corpo desamparado no meio do chão. O seu pêlo cortado rente, meio sujo, meio limpo, afinal, um boneco de estimação com uso, o meu coração derreteu-se de ternura. Eu sei, pode parecer infantil, deslocado, dissociado, ou sei lá, a única coisa que sei é que foi ele que me tirou da solidão em que me encontrava. Foi o meu amigo de Verão. Com ele aprendi a conhecer gente, aprendi a gostar de pessoas outra vez. Ele era divertido, sincero, ridículo, com ele qualquer pessoa estava à vontade.

Apesar do carácter aparentemente desmaiado, Puschkin é uma fonte de vida. Foi ele que conquistou Moscovo naqueles tempos. Quem não o conheceu não pode dizer que trabalhou naquela fábrica.