Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:15

Sab, 10/04/10

Menos de um mês depois de termos a cobertura das eleições importantíssimasdo PSD em todos os canais de televisão, é a vez de vermos nos mesmos canais (não vejas televisão! dir-me-ão...) a cobertura do congresso do mesmo partido em Carcavelos. Em todos os canais, excepto na RTP2 claro, são entrevistas a dirigentes do partido, comentários, excertos do discurso do presidente, mais comentários, todos a falar em "unidade", "alternativa" e "novo fôlego". O presidente diz que não tem urgência de ser primeiro-ministro (pudera!, as eleições foram há menos de um ano), mas que quer construir uma alternativa. Estão convencidos que depois do PS só poderá vir o PSD, como se a alternância fosse segura. Depois do desgaste do Sócrates só pode vir o neo-liberal Pedro P. Coelho. Ainda bem que faltam 4 anos...

Agora que o PSD começa a reunir tropas é preciso dizer o que significou este partido para o país na altura das vacas gordas. Quando o país começou a receber fundos estruturais da CEE no final dos anos 80, estes mesmos senhores (só que um bocadinho mais novos) apressaram-se a desbaratar os dinheiros pelos seus amigos, sem olhar a ideias, inovação, educação, cultura. Na altura era diferente. Precisávamos era de bancos, cimento, jipes e alcatrão. Vejam aonde isso nos levou. A um país sem tecido produtivo. Um país que até à entrada em força da China no mercado global fazia sapatos e apertava parafusos nas fábricas de automóveis das multinacionais e que agora nem isso. Um país atirado à pseudo-auto-regulação dos mercados. Um país onde o primeiro-ministro Cavaco Silva dizia "se os outros já o fizeram e resulta não há razão para não o fazermos" -, sem pensar que "aquilo que resulta" às vezes não é bom para o nosso país, como se viu na recente crise.

Por isso, meus amigos, antes de começarmos todos a dar as boas-vindas a uma alternativa, com a esperança de melhores dias, antes de começarmos a dizer mal do Sócrates e a fazer greves, pensemos antes porque o fazemos e como o fazemos. Poderemos estar a entregar o país a pessoas que, à parte das boas intenções de que o inferno parece estar cheio, não só querem tomar o poder a todo o custo para garantir a sua "felicidade", como dizia o Pedro P. Coelho ontem, como podem não saber o que vão fazer para o governo.

Eu tenho a certeza de que não sabem, porque o discurso que têm é o mesmo que nos conduziu à crise de 2008. A mesma aposta nos mercados para se auto-regularem, a mesma fé no sistema financeiro apoiado em belas passeatas a jogar golfe, o mesmo discurso inócuo sobre as PME's, o mesmo desprezo por tudo o que seja "estado". O problema do PSD ainda continua a ser o PS. O discurso possível do PSD foi preenchido pelo neo-liberalismo do PS, e isso diz tudo do beco sem saída em que o PSD se viu por não ter políticas credíveis e a que conduziu o país durante os anos 90.