Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 18:15

Seg, 05/04/10

Depois de se ter exilado nos E. U. A. para fugir à guerra civil de Espanha, trabalhando no M.O.M.A., Buñuel vai para o México após ter sido acusado de simpatias comunistas por Salvador Dali, a propósito da rodagem do filme A Idade do Ouro. No México, Luis Buñuel inicia a sua fase "alimentar", não porque os temas dos filmes tivessem esse carácter mas porque ele os fazia simplesmente para comer (obrigado ao PoL pela informação).

É desta fase dois filmes que estão ligados por um ténue fio temático que à primeira vista talvez possa passar despercebido: o sonho.

Em 1948-9, Fernando Soler que ia actuar e dirigir um filme com guião de Luis Alcoriza e Janet Alcoriza a partir da peça de teatro de Adolfo Torrado, El Gran Calavera, achou que acumular as funções de actor e realizador seria demasiado trabalho e convidou Buñuel (depois de um primeiro filme sem sucesso no México, O Grande Casino) para a realização. O realizador espanhol divertiu-se a fazê-lo: "Divertiu-me porque me exercitava tecnicamente. Ocupei-me da montagem, da estruturação, dos ângulos... tudo me interessava, porque ainda era um aprendiz no cinema, digamos, normal".

Em El Gran Calavera (O Grande Pândego), um industrial rico (Ramiro), angustiado pela morte da mulher, embebeda-se todos os dias pondo em risco a família e a vida vazia que levam, desde o filho que gasta dinheiro em carros último modelo, à irmã hipocondríaca. Tal como na peça de teatro do século de Ouro espanhol A Vida é Sonho de Calderon de la Barca, a restante família, para dar uma lição ao patriarca, decide representar uma farsa depois de uma noite de grande bebedeira. Vão todos viver para uma casa modesta, fazendo crer a Ramiro que toda a sua fortuna foi desbaratada.

Estamos no domínio da ilusão, do sonho, ou pura e simplesmente do cinema. Só que, se em Calderon a moral é retirada a partir deste estratagema, no filme de Buñuel, Ramiro, sabendo acidentalmente do engano, decide por sua vez enganar o resto da família e com isso descobrirá os verdadeiros valores em que assenta a sua vida. A filha dirá, no final, a propósito do apaixonado que se afasta dela por causa da sua proveniência: "Este ama-me pelo dinheiro que tenho, mas o outro odeia-me pelo mesmo motivo."

É um filme muito próximo do teatro de comédia, com os seus enganos e equívocos, longe dos surrealismos dos primeiros filmes do realizador espanhol, mas que é percorrido por uma ironia fina que revela, no fundo, as suas mais profundas preocupações: revelar os meandros da burguesia, acantonada em privilégios, através de golpes de asa ilusórios, oníricos ou pura e simplesmente cinematográficos.

O mesmo mecanismo acontece em Susana (interpretada por Rosita Quintana, mulher do produtor Sergio Kogan), de 1951, onde uma rapariga, fugitiva de uma casa de correcção (não saberemos nunca a razão da sua condenação) chega à quinta de um grande proprietário (curiosamente o mesmo Fernando Soler) para destabilizar as relações de poder.

Se no filme de 1949 estávamos no domínio da comédia, aqui é o melodrama que faz a sua aparição, Buñuel está ciente disso: "Claro que sabia  [que o guião estava cheio de convenções melodramáticas] julguei-as profundamente, exagerando-as intencionalmente. Contudo não tentei armar-me em esperto fazendo o contrário do argumento. (...) Não foi uma coisa deliberada da minha parte. Foi o subconsciente que interveio, sem dúvida."

Na história, Susana escapa do reformatório através da intervenção divina. Ela reza a Deus para que a liberte do cárcere e Ele ouve-a. As grades da prisão que lembram a cruz católica na sombra projectada no chão, serão arrancadas pela própria Susana como que por milagre. Não se pode deixar de sentir uma ponta de ironia no cuidado colocado nesta sequência inicial (tanto nas preces da prisioneira que nomeia ratos, morcegos, aranhas como seus vizinhos, que vemos, à vez, num sublinhar melodramático e falsamente piedoso), nem podemos deixar de simpatizar (catolicamente) com a injustiça desta prisão, embora não conheçamos a personagem nem os motivos porque foi encarcerada.

Quando chegamos a casa do proprietário Guadalupe e ouvimos a criada exageradamente católica dizer que em noites de chuva assim o diabo anda à solta, não podemos deixar de sorrir, ironicamente, mais uma vez, porque aquela que vimos sair para o meio da chuva não pode ser o diabo. Ela rezou a Deus e Ele acabou por lhe conceder a liberdade.

Só que a sexualidade ostensiva de Susana, a sua beleza inquestionável acaba por conquistar não só o realizador e o seu olhar, aproveitando todos os planos para a exaltar, como todas as personagens masculinas: Jesus (o nome é obviamente metafórico), o capataz, Alberto, o filho, sempre enterrado nos livros que terá aqui a sua primeira e arrebatadora paixão, e o próprio Don Guadalupe. Todos serão vítimas da sedução de Susana, de tal modo que se virarão uns contra os outros até não se reconhecerem mais nos seus papéis.

Susana está, ela própria, consciente do seu poder de sedução, e usa-o para conquistar os homens, mas não se percebe porque razão o faz. Ao mesmo tempo que percebemos a razão porque os homens deixam que o seu mundo seja destruído pelo desejo carnal, começamos a pressentir que talvez ela seja um enviado ilusório, onírico ou divino (tal como em El Gran Calavera) para nos mostrar os valores em que assenta a família de proprietários. Embora o filme tenha o seu nome, é na família que veremos as consequências da sua aparição.

Finalmente, Jesus chamará a polícia que prenderá Susana e a levará para o reformatório. No dia seguinte, ao pequeno-almoço, as coisas voltarão a ser como sempre foram, até a égua que estava doente voltará a ganhar vida milagrosamente. Don Guadalupe dirá que foi tudo um sonho, fazendo-nos crer que Susana foi apenas um teste para podermos ver o desejo daquelas personagens, desejo que sempre lá esteve, escondido, à espera de um motivo apenas para se mostrar.

É um final feliz, à primeira vista, mas, como no início, não podemos deixar de soltar um sorriso irónico, pensando naquilo que as personagens acabaram por revelar sobre si próprias, sem o saberem.

Vinte anos depois de O Cão Andaluz, Luis Buñuel torna a confiar no sonho para despertar a nossa consciência. Mas serão dois filmes sobre o sonho, o ilusório, ou sobre o cinema?