Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:23

Qui, 25/03/10

Para a maior parte das pessoas este será aquele tipo de filme que nunca quererão ver. Eu, se soubesse o que me esperava talvez não tivesse tido tanta curiosidade, mas sabendo que Lars Von Trier arrisca sempre que faz um filme, não tive dúvidas e lancei-me à aventura.

Será talvez um dos filmes que, a par com os de David Lynch, nunca será completamente compreendido e por isso nunca será convenientemente defendido ou atacado. Talvez outro dos seus parentes seja Persona de Ingmar Bergman. Semelhante na abordagem sexual, na psicologização e profundidade das personagens, no silêncio que instala, nos diálogos dilacerantes, mas diferente no estilo (a sobriedade de Bergman contrasta agudamente com o gore de Von Trier).

A história é simples, talvez demasiado simples, o que leva alguns a dizer que tudo é gratuito e outros a argumentar que está tudo contido neste pequeno universo de marido e mulher que perdem um filho enquanto fazem amor.

A cena inicial do filme, num belo preto e branco em câmara lenta, alterna a cena de sexo explícito do casal com a sequência da morte do filho, desde o berço até ao chão da rua coberto de neve. Os flocos de neve alternam, na montagem, com as gotas de água do chuveiro onde o casal faz sexo, o momento é sublinhado pela música de Handel, a área da ópera Rinaldo, "Lascia che'io pianga", cuja letra será a premonição do que está para vir: "Deixa que eu chore a minha cruel sorte." Mas o tom estilizado que Von Trier convoca para esta sequência inicial começará a ser destruído pouco depois. A claustrofobia do argumento ganhará contornos aterrorizadores.

O casal - homem (William Dafoe) e mulher (Charlotte Gainsbourg) nunca nomeados, ele psico-terapeuta, ela escritora -, retira-se para a sua cabana de madeira no meio do bosque, num exílio forçado pela crescente depressão. Ele tenta resgatá-la do abismo onde se afundou, tentando dar um sentido à história de vida que construíram. Eden chama-se o local para onde se retiraram, os diálogos que mantêm são profundos e de uma beleza arrepiante. "Tens de ter a coragem de ficar numa situação que te assusta. Assim aprendes que o medo não é perigoso." Diz ele.

O filme cresce em intensidade dramática à medida que as personagens vão deixando de conseguir viver com o mundo tal como o vêem. Será esse o anti-cristo do filme. "A natureza é a igreja de Satanás" diz a personagem de Gaisnbourg. Ou ainda, "O bem e o mal não têm nada a ver com a terapia." Lars Von Trier constrói um universo onde tudo se funde e (talvez) confunde, onde há lugar para a metáfora e para a declaração explícita, onde a violência e a culpa se amparam e se auto-destroem. Quando uma raposa que acabou de comer as suas entranhas se vira para William Dafoe e diz numa voz diabólica "O caos reina", o filme estilhaça a sua multiplicidade de sentidos deixando-nos na mão do universo criado.

O filme é pontuado por várias paisagens metafóricas: o covil onde Dafoe se refugia e de onde nasce uma ave do chão; as bolotas que caem no telhado da cabana, a árvore de onde nascem braços que testemunham a performance sexual do casal; cenas puramente explícitas: a mutilação do órgão feminino, a mó presa à perna de Dafoe, o desespero sexual, agravado pela culpa; e diálogos poéticos que estarão provavelmente no coração temático do filme: "As bolotas caíram no telhado nessa altura também. Caíam, caíam, morriam, morriam. E compreendi que tudo o que era bonito aqui era provavelmente odioso também. Agora ouço aquilo que não consegui ouvir antes: o chamamento de todas as coisas que vão morrer."

Anticristo é um filme que não se resolve na nossa cabeça no tempo da sua visualização. Ele continuará a ecoar muito depois de o vermos. Nem que seja para nos dizer de que nada é aquilo que parece, é sempre muito mais complicado. O mal e o bem não têm lugar na natureza. Tudo se equilibra inevitavelmente. É por isso que a personagem acaba por perecer no fim, às mãos do seu homem. Não há nada para sentimentalizar.

Dafoe fica entregue ao mundo, à natureza (ele acaba a comer amoras silvestres), centenas de pessoas vêm ao seu encontro no plano final, vislumbramos outros corpos, outras pessoas que estiveram ausentes durante todo o pesadelo, vemo-nos talvez a nós próprios, um coro que terá de inevitavelmente cantar e dançar esta história para aqueles que ficam.