Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 11:37

Seg, 15/03/10

E o governo começou a descarrilar. Não é que eu não estivesse à espera. É claro que em todas estas negociações para aprovar o Orçamento de Estado, e agora o PEC, o governo teve de fazer concessões, falar com a oposição, dialogar, negociar, alterar a sua posição, dar e receber bofetadas e no final aparecer com um documento que possa apaziguar os mercados europeus e estabilizar a credibilidade do país que se podia começar a parecer com a Grécia.

Assim, Sócrates anunciou um PEC sem aumentos de impostos a não ser para os que já ganham bastante. Só que, se formos a ver, já não se pode deduzir tanto na educação e saúde. Os senhores que faziam das facturas falsas um equilíbrio do seu orçamento estão lixados, os outros que deduziam honestamente também. Não aumentam os impostos, o contribuinte é que já não pode educar-se tanto nem ter uma saúde de ferro. Entre a semântica do aumento de impostos e a redução de deduções ponho o meu nariz (que é grande) e ele diz-me que isto está a cheirar mal.

E ainda fico mais desconfiado quando vejo o conjunto de privatizações que o estado quer promover. O governo do PS ainda não se tinha atirado a esta, mas deve ter sido uma concessão aos partidos da direita, com toda a certeza. Vender aquelas empresas que dão ainda alguns dividendos ao estado, passá-las para os privados e dar-lhes mais subsídios quando estão em crise é ideia que só pode vir da direita. Ossos do ofício. Privatizações? Vender para abater a dívida? Não. Promovam o tecido empresarial para ele, sim, abater a dívida. Apostem nalguma coisa que achem que é realmente importante. É a energia eólica? É o quê? Pensem numa política. É para isso que vos pagamos. Não para vender as coisas na primeira Feira da Ladra que promovem.

Aquilo que me começa realmente a meter nojo é a salvação que o Governo teve de fazer aos bancos para os salvar da falência e o modo como esse princípio não se aplicou ainda a outras empresas e instituições, o modo como esse princípio nunca mais funcionou para nada. Que  rápidos eles foram para as instituições de crédito. Que lentos que são a arranjar soluções para o desemprego.

Isto tudo para dizer que agora que começamos a sair da crise, ou lá o que é, quando o governo começa a governar pela segunda vez, as coisas estão a voltar àquilo que eram dantes. Concessões, negociações, privatizações, impostos mal esclarecidos mascarados de demagogia, porta-vozes do PS (Vitalino Canas) a comentar a vida interna do PSD - se eles querem fazer uma lei stalinista é lá com eles! - (porque será que estão tão interessados?), o Bloco de Esquerda à deriva, atirado fora das negociações sem apelo nem agravo (e agora arrependido por não poder influenciar o governo), o PCP à deriva anda (e com muito gosto devem eles acrescentar - para grande infelicidade minha, digo eu), e o CDS a subir nas sondagens à conta de um Portas de estado, com um cuidado especial na comunicação aos telejornais: sintético, demagogo, claro nas suas propostas parvas (tudo o que um partido precisa para subir nas sondagens) e ainda por cima a negociar com o governo, a saber mais do que o resto das pessoas.

Os casos escandalosos foram caindo, com o aproximar deste congresso para a eleição do novo messias do PSD e o folclore associado esqueceu-se as Faces Ocultas e os Freeports e os outros fait-divers inventados pelos jornalistas. Mas eles não tardarão a aparecer, um novo caso deve estar a ser forjado neste preciso momento num qualquer gabinete da direcção de um canal de televisão ou num jornal. Não esperem pela demora.