Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 20:52

Qui, 04/03/10

Se há filmes que não perco são os realizados/imaginados pelos irmãos Coen. Em 2009 eles decidiram presentear-nos com Um Homem Sério O filme está nomeado para dois óscares da Academia, melhor realização e melhor filme.

É a história de um professor de física na faculdade, judeu, que começa a ter problemas na sua vida pelo facto de ser incorruptível e sério. Como se pode imaginar, na sociedade em que vivemos, ser estas duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que vivamos nos E.U.A. em plenos finais dos anos 60, com os Jefferson Airplane na rádio e toda a espécie de promessas feitas por um estilo de vida inconsequente, não pode dar bom resultado. Ele passará todo o filme a lutar contra esta fatalidade cruel. Se vence ou não esta batalha, essa é a pergunta que o filme nos coloca no fim.

O filme abre com uma pequena história que vem dos confins da Polónia, uma espécie de lenda judia onde um homem que devia estar morto aparece à porta de um casal, apenas para ser esfaqueado (morto?) pela mulher. Esta história estabelece o tom do filme e o ambiente de superstição em que grande parte das personagens vivem. Uma comédia negra como algumas a que os irmãos Coen já nos habituaram: "Queimar Depois de Ler"; "O Grande Lubovsky", "Lady Killers" ou "Arizona Junior".

Larry Gopnik é um professor de meia-idade, da classe média americana, que faz o seu check-up de rotina a tempo e horas, dedicado aos alunos e às suas aulas que espera ser catedrático dentro de pouco tempo. A vida podia sorrir-lhe se tivesse um rosto. Mas só até ao momento em que as coisas começam a correr mal. Quando um aluno coreano pouco escrupuloso o ameaça de difamação se ele não o passar na sua cadeira, as coisas começam a mudar - estranhamente.

Nesse dia chega a casa e a mulher diz-lhe que se quer separar porque não aguenta mais o facto de ele ter o irmão lá em casa (que para grande desespero da filha que lhe rouba dinheiro para uma operação plástica ao nariz, nunca sai da casa de banho). Gopnik, apenas balbucia "Mas eu não fiz nada". Será uma das frases mais ouvidas no filme. Ela irá viver (casar mesmo, segunda a tradição, e para isso precisa de uma separação oficial da lei judaica) com Sy Ableman (sigh; suspiro), um judeu absolutamente insuportável, de falinhas mansas, irrepreensivelmente educado que o conduz impávido pelo seu desespero. Ele acabará por morrer num acidente de carro e, ironia das ironias, Gopnik pagará o enterro.

Enquanto Gopnik dorme na sala com o irmão, encontra-se com uma vizinha que tem o hábito de apanhar banhos de sol toda nua. Vislumbra-se um princípio de uma nova vida para ele.

Mas não é a história de um homem que subitamente se vê fora do sistema em que acreditou toda a vida: a unidade da família, o emprego de responsabilidade social, etc, que torna o filme tão interessante. É o modo como o argumento de Ethan e Joel Coen se articula com as personagens, a quase ausência de música no filme (outra vez como em Este País Não É Para Velhos), o olhar plácido da câmara, a ironia de alguns inserts, as cores escolhidas que reconstituem magnificamente o final dos anos 60, a direcção dos actores, a ausência de nomes sonantes na lista de actores ajuda a estabelecer o tom certo de um filme que poderá correr o risco de ser esquecido por quem se sente atraído por vedetas e estrelas. Mas para quem uma história e aquilo que ela pode dizer sobre nós é mais importante que qualquer carinha laroca é um filme imperdível de uma dupla que há muito tempo já nos habituou à excelência. A não perder.