Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 14:59

Qui, 24/12/09

No início do século XX agudizou-se particularmente a situação política interna de Portugal. Com a aprovação da lei sobre as congregações religiosas no Outono de 1901 tiveram lugar manifestações no país. A lei permitia a permanência no país de todas as congregações religiosas, salvo os jesuítas, mas estes invadiam o país novamente dando outros nomes à sua organização. Perante isto, em todas as grandes cidades portuguesas realizaram-se manifestações de protesto nas quais participaram mais de 100 mil pessoas. Isto por pouco não levou ao rompimento de relações com o Vaticano. A opinião pública portuguesa acompanhou com grande atenção as negociações que decorreram no Inverno de 1902 entre o governo português e gabinetes estrangeiros sobre a questão da conversão da dívida externa portuguesa. O Século, jornal republicano, passou a publicar com frequência artigos em que se exigia o fim da política antipopular do governo e que se anulassem os acordos firmados com credores estrangeiros. A opinião pública portuguesa considerava os acordos sobre a conversão como mais uma tentativa no sentido de  legalizar  a  intervenção  estrangeira  nos  negócios  internos  do país.

Causou grande preocupação nos círculos ligados à Corte, a petição dirigida ao rei, a 10 de Maio de 1902, por representantes do exército e da marinha que continha uma acerba crítica a todo o sistema político então vigente.

Tornaram-se mais frequentes no país as manifestações revolucionárias no exército e na marinha. Assim, por exemplo, em Abril de 1906, a bordo do cruzador Dom Carlos houve uma revolta de marinheiros que teve o apoio da tripulação do cruzador Vasco da Gama. A revolta foi cruelmente sufocada. Este acontecimento veio mostrar que o descontentamento existente se propagara mesmo a um dos pilares de regime, as forças armadas.

Ao mesmo tempo a onda de agitações abrangia o mais antigo centro escolar do país, a Universidade de Coimbra, as Escolas Médicas e Politécnicas de Lisboa e do Porto e outras escolas superiores. Tropas foram lançadas contra os estudantes e as escolas fechadas por decisão do governo.

Os operários das indústrias portuguesas, sobre os quais recaía o maior peso da política antinacional e antipopular do governo, desencadearam a luta pelas suas reivindicações económicas e políticas. Intensificou-se no país o movimento grevista, no decurso do qual houve choques entre os trabalhadores  e  a polícia.

Neste período, o Partido Socialista, devido à sua debilidade ideológica, não conseguiu encabeçar as manifestações operárias e, gradualmente, foi perdendo a sua influência. É de notar que, no começo do século XX, o movimento socialista em Portugal passava por sérias dificuldades. Um maior enfraquecimento das posições de todo o movimento operário português foi causado pela cisão do Partido Socialista, em 1892, quando se formaram duas alas, a anarquista e a socialista, e por nova cisão em 1900, quando a ala esquerda do Partido Socialista se dividiu em partidários da aproximação com os republicanos e em opositores. Os republicanos imediatamente se aproveitaram disso, desencadeando um movimento de propaganda que tinha por objectivo atrair os trabalhadores com a promessa de considerável melhoria da sua situação material, caso se instaurasse o regime republicano.
Nas vésperas da queda da monarquia incrementou-se no país a actividade dos carbonários, organização secreta fundada em 1898. Criada à imagem da organização dos carbonários italianos, tinha por objectivo o derrubamento do regime monárquico pela força e a liquidação do clericalismo em Portugal. A sua agitação política fazia-se por toda a parte: nas fábricas, na construção civil, nas ruas, na imprensa. Os carbonários chamavam a população a agir com decisão e coragem. No anos de agravamento da luta revolucionária a organização dos carbonários, que reunia representantes das mais diversas profissões e camadas sociais (médicos, advogados, funcionários públicos, operários), aumentou grandemente,  chegando  a atingir 40 mil membros.

A Revolução Russa dos anos 1905-1907 exerceu influência sobre o desenvolvimento do movimento revolucionário em Portugal. O embaixador russo em Lisboa, Koiander, comunicava ao seu governo que «todas as notícias sobre o que acontece na Rússia, divulgadas em Portugal pelos revolucionários russos que se acham no exterior, são imediatamente transmitidas pelo telégrafo e publicadas pelos jornais portugueses com grande destaque». Neste sentido ele chamava a atenção do governo português para a campanha orientada contra o absolutismo tsarista, que se fazia sistematicamente em Portugal. Os jornais republicanos publicavam artigos em que se condenavam as perseguições organizadas pelo governo tsarista contra os revolucionários russos e em particular contra Máximo Gorki. Reuniões e comícios realizados no Porto, em Coimbra e Lisboa expressavam o protesto contra as repressões levadas a cabo pelo tsarismo. Uma reunião de estudantes de Coimbra exigiu a imediata libertação de Gorki, preso por ordem do governo tsarista. Toda a intelectualidade do país se associou à campanha em defesa de Gorki. Assim, por exemplo, a 2 de Fevereiro de 1905, jornalistas e escritores do Porto enviaram ao rei um telegrama em que se exigia fosse «preservada a vida deste arauto dos deserdados».
Em telegrama endereçado ao Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Koiander reconhecia que «os eventos revolucionários da Rússia constituem uma das causas da intensificação da campanha antimonárquica em Portugal».

As manifestações revolucionárias, cada vez mais frequentes no país, constituíram uma ameaça à existência da monarquia em Portugal. Nestas condições a crise chegou às altas esferas. Parte dos círculos governantes tencionava substituir por uma certa renovação de fachada do velho regime as soluções básicas dos problemas sociais, políticos e económicos já amadurecidos. Tais reformas, organizadas de cima, conforme imaginavam os seus promotores, deveriam evitar a mudança radical das relações sociais, políticas e económicas existentes então no país. (Continua.)

 

 

Nikolai Efimov. Site do PCP.