Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor.


Pedro Marques @ 21:15

Qua, 28/10/09

Uma das causas mais sérias do atraso de Portugal estava na sua completa dependência em relação ao capital estrangeiro, principalmente o inglês. Os países ocidentais que detinham nas suas mãos as posições-chave estavam interessados em obter as matérias-primas das colónias portuguesas, mantendo Portugal na situação de país fornecedor das mesmas. Estavam interessados também na exploração em ampla escala da mão-de-obra nas empresas industriais tecnicamente atrasadas.
No seu trabalho O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, Lénine, ao analisar a luta dos grandes Estados imperialistas pela divisão do mundo, indicava que lado a lado com os países metropolitanos e as colónias existem formas variadas de países dependentes, países que, de um ponto de vista formal, político, gozam de independência, mas que, na realidade, se encontram envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática». Ao desenvolver essa tese aplicada a Portugal Lénine escrevia mais adiante: «Portugal é um Estado independente, soberano, mas na realidade há mais de duzentos anos, desde a Guerra da Sucessão de Espanha (1701-1714), que está sob o protectorado da Inglaterra.  A Inglaterra defendeu-o, e defendeu as possessões coloniais portuguesas, para reforçar as suas próprias posições na luta contra os seus adversários, a Espanha e a França. A Inglaterra obteve em troca vantagens comerciais, melhores condições para a exportação de mercadorias e, sobretudo para a exportação de capitais para Portugal e suas colónias, pôde utilizar os portos e as ilhas de Portugal, os seus cabos telegráficos, etc, etc. Este género de relações entre grandes e pequenos Estados sempre existiu, mas na época do imperialismo capitalista tornam-se sistema geral, entram como um elemento, entre tantos outros, na formação do conjunto  de relações que regem "a partilha do mundo", passam a ser elos da  cadeia  de  operações  do capital  financeiro  mundial.»
Portugal que se apossara de enormes colónias em África viu-se ele próprio numa situação de dependência semicolonial em relação a um rapinante ainda mais feroz, a Inglaterra. Estabeleceu-se o controlo inglês sobre quase todos os ramos da economia portuguesa. Foram quase inteiramente parar às mãos da Inglaterra as minas de volfrâmio da Panasqueira e as de pirite de São Domingos, os transportes ferroviários e urbanos, o comércio externo, as comunicações, a extracção e a exportação da cortiça (um dos principais produtos de exportação de Portugal), numerosas empresas manufactureiras e até a produção do famoso vinho do Porto. A Inglaterra era o único país a fornecer a Portugal carvão de pedra, tecidos e automóveis. Os preços dos artigos de primeira necessidade, por via de regra, eram estabelecidos em libras esterlinas. Os governantes portugueses, numa atitude servil e sem princípios, traíam os interesses nacionais, criando um clima propício para a penetração cada vez maior do capital estrangeiro na economia de Portugal e das suas possessões no ultramar. Cabe reconhecer entretanto que a dependência económica e política não significava que Portugal observasse calmamente a pilhagem das suas colónias pela Inglaterra. Entre os dois países surgiam constantemente conflitos que vinham influir sobre a situação política interna de Portugal.
Assim, as tentativas por parte de Portugal no sentido de se estabelecer na região do rio Chire, em Moçambique, defrontaram-se com a atitude hostil da Inglaterra, o que levou a um agravamento das relações entre os dois países. A 11 de Janeiro de 1890 o governo inglês apresentou ao governo de Portugal um ultimato relativo a concessões territoriais em Moçambique. Temendo as possíveis e sérias consequências a Corte portuguesa aceitou incondicionalmente o ultimato.
Em 1899 a Inglaterra conclui um acordo secreto com Portugal, que vinha confirmar as obrigações anteriormente assumidas pela Inglaterra no sentido de proteger e defender contra os inimigos presentes e futuros todas as possessões da Coroa portuguesa e que obrigava Portugal a adoptar uma atitude favorável à Inglaterra na guerra que estava prestes a eclodir entre este país e os bóeres.
Assim, o desenvolvimento de Portugal era dificultado pelo atraso da agricultura, pela ausência de uma solução para a questão agrária, pelo jugo económico, político e financeiro imposto pelos monopólios estrangeiros e, além disto, pelo regime despótico dos Braganças. A política de submissão do país ao capital estrangeiro, os desmandos dos funcionários reais provocavam crescente descontentamento no país,  tendo conduzido ao aprofundamento das tendências republicanas.
O movimento republicano em Portugal passou a desenvolver-se depois da revolução espanhola dos anos de 1868-1873. Em 1875 foi criado o Partido Republicano em Portugal, tendo arregimentado nas suas fileiras a fina flor da intelectualidade burguesa. A sua base social era constituída pela pequena burguesia de Lisboa, do Porto e de Coimbra. No mesmo ano teve lugar o Congresso para criação do Partido Socialista Português.
Nos primeiros anos o Partido Republicano não gozava do apoio das massas populares. A rebelião da guarnição militar do Porto a 31 de Janeiro de 1891, que eclodiu sob a influência das ideias republicanas, não teve o apoio das amplas camadas da população, e depressa foi sufocada pelas tropas fiéis ao governo. Depois da derrota desta rebelião, durante longos anos Portugal viu-se sob o jugo da mais terrível reacção política e entregue aos desmandos do governo. (Continua.)

 

Nikolai Efimov. Site do PCP.