28
Jan 12
OU, ENTRE QUALQUER ARTE?

Numa entrevista à Telos, a revista trimestral americana da escola marxista de Frankfurt, perguntaram a Zappa se via alguma distinção entre arte superior e arte inferior. E ele perguntou: “Ou, entre qualquer arte?”[1]

Esbater a distinção entre arte e vida tem sido uma atividade americana desde Walt Whitman, pelo menos, que exprimia o seu mal-estar com um honroso, embora insuflado, estatuto que era concedido à arte da sociedade desse tempo. Isto explica a aparente contraditória combinação de disciplina e acaso na música de Zappa. “Esta gravação tem de ficar com todas as notas certas”,[2] juntamente com o “Que se foda”.[3] O acaso assinala a entrada do real no projeto. Tal como um surrealista que retrata a Europa devastada antes do começo da Segunda Guerra Mundial,[4] Zappa mistura elementos do mundo real de tal forma que a sua arte se torna microcósmica. Analisa a substância das coisas muito mais profundamente do que a informação real do mundo, o seu passado e o seu futuro. Desde James Joyce que ninguém tentava demolir as barreiras entre arte e vida com um fervor tão produtivo.

Ao falar de arte levantamos a questão da sua definição. Para os marxistas, a arte é o estádio a meio-caminho da burguesia – a meio caminho entre a pompa religiosa do feudalismo e a permanente recriação da vida quotidiana que caracterizaria a sociedade pós-bens-de-consumo. Antes do aparecimento da classe burguesa, os trabalhos artísticos – histórias de aventuras, ocasionais retratos, partituras para alaúde e viola de gamba – não eram investidos com o significado pessoal dado à arte pelos românticos. Se se tivesse incertezas metafísicas, ansiedade sobre o lugar da alma no esquema cósmico das coisas, consultava-se um especialista: o padre. A religião detinha o monopólio dessa faculdade, classificando e castigando como heresia as referências diretas à Bíblia (ou a Deus). Em 1789, a revolução francesa mostrou como a religião apoiou a velha ordem: na fase revolucionária, a burguesia não queria nenhuma das velhas hierarquias do feudalismo e da fé. Ela exigia uma imagem racional do mundo. Quem sondaria agora as profundezas da alma, quem mediria o pulsar de uma vida “interior”? Os poetas e os pintores deram um passo em frente.

A arte foi o substituto da religião, um repositório de valores mais “elevados” que aqueles de fazer dinheiro. As implicações reacionárias deste tipo de idealismo podem ser percebidas (de forma desviada) pelo tom triunfante do senador Paula Hawkins quando, no Senado, fez uma pergunta a Zappa sobre lucros.

 

PH: O senhor obtém lucros com estes discos de rock?

FZ: Sim.

PH: Obrigado. Acho que esta declaração já diz qualquer coisa ao Comité.[5]

 

Ao mesmo tempo que a indústria discográfica se deixa censurar, em troca de legislação que reúne dinheiro ao criar um imposto para determinadas gravações, um artista que diz que tem lucro é crucificado. A mesma declaração que devia alinhar Zappa com os interesses económicos da classe dirigente americana é apresentada como prova da sua inutilidade como artista e a sua falência moral como cidadão.

Tais declarações são parecidas com as condenações da esquerda, porque também ela moraliza contra a obrigação de fazer lucros. As estéticas de esquerda sofreram um grande revés desde os dias em que Leon Trótski se correspondia com André Breton sobre as implicações revolucionárias do surrealismo. As dialéticas negativas das habilidades do caniche não têm tempo para as assim chamadas críticas de arte marxistas que meramente completam as altas pretensões da burguesia liberal. Gostar de arte sob o capitalismo é o mesmo que nos divertirmos com a contradição; a outra opção é passar a vida a ler livros de Percy Shelley. Para escárnio dos que impedem a combinação que fazemos entre políticas leninistas e a zappologia, as dialéticas negativas reafirmam um ponto: a arte de Zappa, embora necessariamente colada a uma crença pequeno-burguesa das indústrias caseiras, faz parte de um protesto contra as divisões da sociedade capitalista tanto quanto a música de Charlie Parker ou Kurt Weill. Os que reduzem o marximo a moralidade – um conjunto de palavras-chave que nos separam do resto – arruinaram as dialéticas e impediram qualquer compreensão da indústria cultural. São os mesmos avarentos que disseram que a esquerda devia ignorar o punk. A arte não é simplesmente a representação de aspirações que serão julgadas pelas sua validade. É em si mesma um processo material. Isto cria problemas à ideia de arte como repositório dos chamados valores não-materiais “elevados”. Durante o século dezanove, o próprio desenvolvimento técnico atirou essa ideia para uma crise. À medida que os românticos espremiam cada vez mais expressão pessoal das velhas formas – cromatismo e dissonância na música, simbolismo na poesia, pinturas sobre pintura – alargavam o alcance de conhecimentos artísticos, mas perdiam público. Nas décadas 10 e 20 do século XX o modernismo artístico pressagiou uma nova era na qual não era exigida representação porque a humanidade estava ativamente a construir o mundo – a promessa da revolução russa. Branco em Branco de Casemir Malevich era um objeto no meio do próprio mundo e não uma janela do mundo que ficava para além do antagonismo entre o eu e a sociedade. A sociedade era agora a galeria onde a arte devia operar. À medida que as vitórias da revolução de 1917 recuavam, tais recusas de divisão da sociedade capitalista passaram a não ser bem vindas. No Ocidente, a distância entre trabalhos artísticos modernos e a vida da maioria da população era exibida como evidência da estupidificação massiva; sob o comunismo eram completamente banidos.

A contra-revolução de Estaline suprimiu o poder aos trabalhadores em nome da ideologia “socialista” e instituiu o socialismo realista, um retorno às formas do século dezanove, com uma cláusula para contentamento. O modernismo tornou-se a má consciência do regime. Ao mesmo tempo que Estaline limpava todo o pessoal do comité central bolchevique e os artistas abstratos eram perseguidos e confinados a asilos para loucos.

Sem surpresa, os Estados Unidos viram que podiam promover a arte abstrata em nome da liberdade e empreendimento. Quando Jasper Johns exibiu bandeiras americanas em galerias de arte, um gesto patriótico que não podia ter sido feito mais estrepitosamente, a ação foi explicada por Clement Greenberg como sendo um passo em frente na misteriosa discussão da insipidez da pintura plana, uma dialética que pretendia ignorar todas as políticas da guerra fria. A retrospectiva de Jasper Johns na Galeria Hayward em Londres, em 1991 – no pico da Guerra do Golfo – foi financiada pela Texaco, uma das empresas de petróleo americanas cujos lucros eram ameaçados pela anexação do Kuwait por Saddam Hussein. Tais observações políticas, que desafiam o estatuto de transcendência da arte na sociedade, excedem a composição da ideologia artística americana – incluindo a do pós-modernismo. A observação de Zappa “ou, entre qualquer arte?”, também serve para o libertar de tais obscurantismos. A necessidade de haver negociantes que promovam novas ondas de artistas, a insatisfação dos artistas com o sistema de mercado que não oferecia as promessas do modernismo, levaram à “obsoletização” instantânea que caracteriza os estilos artísticos ocidentais do pós-guerra. A arte tornou-se zona esquizofrénica perigosa, uma mixórdia contraditória de retro-religião, recusa vanguardista. À medida que os comentadores tentavam ver na arte o humanismo de “equilíbrio” de um sistema, conduzido à racionalização do lucro, isso desvanecia-se à frente dos seus olhos com os arcaicos fetiches religiosos (T. S. Elliot, Bob Dylan, Arvo Pärt) ou os criptogramas auto-mutiladores do modernismo (Samuel Beckett, John Cage, Joseph Beuys). Ao manter a sua fé no modernismo e ao reconhecer a incapacidade da arte para transmitir a sua mensagem numa cultura de bens de consumo, os artistas viram-se envolvidos num paradoxo permanente, numa guerrilha de subterfúgios e recusas. Daí a preferência das instituições culturais pelos clássicos produzidos durante a fase heroica da burguesia: Shakespeare, Beethoven, Rembrandt. Reciclar os velhos serve para esconder o preocupante facto de que a sociedade capitalista moderna só produz verdadeira arte quando exalta falhas sociais, resultando numa obsessão com o passado que o modernismo, com o seu consumo filtrado de uma cultura de massas, sob o nome de arte, pouco fez para atenuar.

A busca do modernismo em Zappa é intuitiva em vez de teórica, mantendo a afirmação de que a música e a arte são filosofias concretas – um pensamento sobre o mundo sensualmente globalizante. Them or Us (The Book), a sua resposta às questões de continuidade conceptual, contém uma objeção no prefácio.

 

Este reles livro, feito em casa, foi preparado para as pessoas que já gostam da música de Zappa se divertirem. Não é para intelectuais e outras pessoas moribundas.

 

Alguns fanáticos tomam esta hostilidade para com o pensamento sistematizado como pré-requisito para compreender Zappa, o que transformaria um projeto como o presente livro numa obtusidade. Quando comparado com o filistinismo das classes “educadas”, isto é deveras tentador. Contudo, deixa os guardiães da cultura elevada fora de cena, permitindo-os ignorar Zappa como excêntrico do rock de culto. De facto, Zappa tem uma consciência do papel histórico da arte e uma visão do seu lugar nela, tão claras como materialistas.

Há muito que Zappa declarava interesse pelas possibilidades da música clássica. Depois de descobrir a existência de um compositor do século dezoito chamado Francesco Zappa, lançou um disco chamado Francesco, a partir das partituras do Zappa do século dezoito realizadas no computador. Contudo, ele não tinha dúvidas de que o barroco representava uma época de ouro da criatividade musical. Como David Ocker observou na sua nota do folheto do disco, o trabalho do Zappa do séc. XVIII era “dar ao serrote enquanto os nobres jantavam”.

Zappa desenvolveu o assunto no The Real Frank Zappa Book:

 

As normas praticadas nos velhos tempos começaram a ser usadas porque os tipos que pagavam as contas queriam que as “melodias” que compravam “soassem de certa maneira”.

O Rei dizia: “Corto-te a cabeça se não soar assim.” O Papa dizia: “Arranco-te as unhas se não soar assim.” O Duque, ou outra pessoa qualquer, talvez tenha dito de outra maneira – mas é o mesmo hoje. “A tua canção não passa na rádio se não soar assim.” As pessoas que pensam que a música clássica é de alguma maneira mais elevada que a música radiofónica, deviam dar uma olhadela às formas envolvidas – e a quem paga as contas.

 

O uso que Zappa faz das partituras musicais não tem nada em comum com os sonhos da pequena burguesia da harmonia pré-industrial, base do consumo de música clássica no século vinte (e do rock neoclássico, de Meat Loaf a Michael Nyman).

Em sintonia com outras figuras da tradição “inventiva” americana – Buckminster Fuller, Charles Ives, Harry Partch, John Cage – as ideias de Zappa têm um toque excêntrico e caseiro, mas por causa da sua atenção a factos que lhe dizem respeito (e a sua impaciência com as justificações liberais), as visões são encorajadas por filosofias radicais e artistas vanguardistas que operam em circunstâncias diferentes. De Sade e Wyndham Lewis traçaram trajetórias paralelas.

O que se segue examina as mais recentes manifestações de tais ideias em Jacques Attali e na Internacional Situacionista, contudo só mesmo Marx e Freud (e o modo como as suas ideias foram aplicadas à música por Theodor Adorno) são capazes de medir a ferocidade dizimadora da arte de Zappa.


[1] Telos, Primavera 1991, No. 87, entrevista com Florindo Volpacchio, pp. 124-36. Obrigado a Matthew Caygill por me falar disto.

[2] Frank Zappa, preâmbulo de “Bebop Tango (of the Old Jazzmen’s Church)”, Roxy & Elsewhere.

[3] Nota de Frank Zappa, “The Sheik Yerbouti Tango”, Sheik Yerbouti, 1979. Elevado agora ao estatuto de filosofia menor numa entrevista recente: Zappa! (um suplemnto dos editores de Keyboard e Guitar Player), ed. Don Menn, 1992, p. 64. Aqui é expresso como uma combinação de “quando” e “que se foda” (onde “quando” pode ser interpretado como as “notas certas”).

[4] Max Ernst, Europa Depois da Chuva, 1933.

[5] Audiência no Senado sobre “pornografia no rock”, 1985.

encenada por Pedro Marques às 15:41

27
Jan 12

A primaveril sirene da criminosa canção –

Levemo-la na sua incandescente cera

Saturada de cambiantes

Dos quais somos herdeiros

Hart Crane[1]

 

 

PORQUÊ MARX, PORQUÊ FREUD

 

Estes escritos tiveram origem em artigos de vários periódicos da vanguarda do início dos anos 80, que foram publicados sob o pseudónimo Out to Lunch.[2] O trabalho de Frank Zappa servia para analisar e ao mesmo tempo denegrir as conquistas da literatura Ocidental, desde os românticos até Henry James, um método que se chamava as dialéticas negativas das habilidades do caniche. Embora escrito de um modo que atraía mais facilmente os literati que os fanáticos do rock, o parágrafo de abertura – “Frank Zappa: As Dialéticas Negativas das Habilidades do Caniche, Parte Um" – ainda resume, para mim, as alegrias e horrores de analisar Zappa e a sua arte.

 

Ao escrever sobre Zappa comprometer-me-ei com determinadas relações da engrenagem da racionalidade aceite, não quero parecer impressionista ao escrever, nem fazer arte pela arte; a liberdade é sempre constrangida com a necessidade de termos de continuar a descer a montanha. Por outro lado, odeio a entediante e ruidosa preocupação do alpinista e as suas auto-justificações, quando a linguagem se torna apologética é corrupta[3] e a linguagem dos zappólogos não é exceção. As descobertas dos zappógrafos não podem ficar abandonadas a encarquilhar nas águas da religião para, como bengala, serem transformadas em ilusórios cestos coletores de moralidade forjada. Pelo contrário, as descobertas devem ser usadas para atenuar a auréola inflamada de ansiedade visceral que a reprovação espalha até aos nossos mais obscuros pontos de prazer. A aplicação direta deste unguento, contudo, só encrava o motor, tal como o cinto de segurança que encolheu e ficou mais pequeno.[4] À semelhança da psicanálise, o objetivo é notificar uma cura a partir de dentro e não construir uma cerca de constrangimentos morais. Mas, ao contrário das perversões domesticadas da psiquiatria, a zappografia não pensa regressar aos excessos do motor 2-4-6-8 universal de transmissão por cinto. Desembraiamos, porque tem de ser, atiramos todas as locomotivas intenções aos ventos e, se a tralha cai toda aos bocados, então é porque não valeu a pena consertá-la. Não é que vá evitar algum “risco” envolvido na escrita, pode-se sempre riscar coisas. Cada vez que um tema de Zappa prova a sua valia, percebemos, seja como for, que todo o processo desempenha um papel num microcosmos: dia a dia, o significado e a confiança re-coagulam. Enfrentar as inevitáveis pressões que levam à justificação é errado, mas isso não quer dizer que não cheguemos lá no fim, ou que não as tenhamos enfrentado antes. Eu prefiro entrar pelas traseiras e ocupar o inimigo por dentro. A estratégia mais primária reside em pegar nas irrelevâncias mais comuns, estruturas que não possuem nenhuma possibilidade de analogia – como os dentes. Mas antes dessa iluminação, a continuidade conceptual do caniche acena-nos. Irrelevância ainda mais comum, porque a sua confiança grosseira começa a assemelhar-se às percepções da caixa de velocidades que está debaixo do capot.[5]

 

O original prosseguia, comparando “Cheepnis[6] de Zappa a “Kubla Khan” de Samuel Taylor Coleridge – mas de certeza que a generalidade dos leitores não lucraria nada com tal espécie de preâmbulo.[7]

Para além de se preocupar com Frank Zappa e os seus concertos, vídeos e discos, as dialéticas negativas das habilidades do caniche também lhe aplicam as visões de Karl Marx e Sigmund Freud. Embora tenham sido, supostamente, substituídos pelas escolas de pensamento pós-tudo,[8] as ideias de ambos continuam a brilhar ardentemente, talvez porque aquilo de que falavam – capitalismo e família – ainda estejam no meio de nós. Embora se diga muitas vezes incompatíveis, Marx e Freud partilham características fulcrais: materialismo, hostilidade em relação à religião, obstinada insistência na capacidade da razão humana para apoiar e mudar tanto o mundo como a mente. Ao seu jeito, não erudito, Zappa mantém uma similar crença na razão, recusa-se a permitir que as normas sociais comprometam uma visão de como as coisas podiam ser. Marx desejava fomentar a autoconsciência política da classe trabalhadora; a palavra de ordem de Freud, “o ego estará onde o impulso instintivo estiver,” mostra uma confiança na consciência que está muito longe do pessimismo de Nietzsche e seus herdeiros parisienses. Ao desembaraçarem-se dos mistérios e do inconsciente, Marx e Freud são frequentemente condenados pelos que defendem a ordem atual – mas para mim isto indica apenas uma não verdade no modo como as coisas são geridas e não denigrem as suas teorias.

Se alguém envolvido na cultura de massas parece apontar para uma não verdade como as coisas são geridas, essa pessoa é Frank Zappa. Obstinado, irredutível, opositor, a sua música é uma disjunção contínua, um Dada permanente. As suas políticas explícitas – lealdade à unidade familiar e honestidade nos negócios mais pequenos – estão tão longe da psicanálise radical ou do marxismo quanto conseguirem imaginar, mas é precisamente porque ele não devolve tais preceitos filosóficos ao nível da representação que a sua música proporciona um malte convincente para o pensamento radical. Zappa produziu uma miscigenação de elementos altos e baixos que envergonham a retórica da arte pop e o pós-modernismo.

A crença de Zappa no conhecimento, que é um golpe à opressão, é ilustrada por este diálogo com um cristão born again durante uma audiência sobre “pornografia no rock” no Senado dos E.U. Poderão imaginar o sentimento das palavras pelo tremor incaracterístico da voz.

 

CRISTÃO: Algumas destas coisas não são relações sexuais normais.

FZ: Não quer dizer que tenhas de as fazer. A informação não te mata...

CRISTÃO: Elas são demasiado novas para saberem a diferença.

FZ: As crianças aprendem a ver as diferenças ao receberem informação que conseguem juntar e depois selecionar com a tua ajuda de pai. Se não as fizeres saber estas coisas, crescerão e serão ignorantes.

CRISTÃO: Gostava de os manter ignorantes de certas coisas. [Aplauso em massa.]

FZ: Uma pessoa que prefere que as crianças sejam ignorantes está a cometer um grande erro – porque nesse momento podem ser vítimas.[9]

 

O colapso do comunismo na Europa de Leste levou à morte do estado socialista como ideologia viável para a classe média liberal. Enquanto o vácuo que isto criou é preenchido por uma nova panóplia de irracionalismos de uma nova era, o apelo de Zappa para a razão é tão raro como oportuno.



[1] Hart Crane, “For The Marriage of Faustus and Helen”, 1926, The Complete Poems and Selected Letters, ed. Brom Weber, 1966, p. 31. Tradução de P.M.

[2] Out To Lunch, “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part One’, A Vision Very Like Reality, ed. Peter Ackroyd, Ian Patterson, Nik Totton, Dezembro 1979; “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part Two’, Reality Studios, ed. Ken Edwards, Vol. 5, Nos. 1-4, 1983; “Erogenous Sewage: Poodle Play Explores the Work of Hart Crane’, Heretic, ed. Paul Broen, Vol. 1, No 2, 1980; Out to Another Lunch Party: Plato’s transcendental sofa grounded in material hide by revelations concerning frightened phallicism, spatial screaming and nasal spores”, Equofinality, ed. John Wilkinson, Rod Mengham, No. 2, 1982; So Much Plotted Freedom: The Cost of employing the language of fetishized domination – poodle play explores the sex economy of Henry James” lingo jingo, Reality Studios, Occasional Paper, No. 6, 1987; “Secret Hungers in Horace”, Horace Whom I Hated So, ed. Harry Gilonis, 1992; Secret Hungers in Horace: The Negative Dialectics of Poodle Play Performs a Psychoanalgesis on Horace, Form Books, Occasional Paper, No. 1, 1993.

[3] Theodor Adorno and Max Horkheimer, The Dialectic of Enlightenment, 1944, p. 219.

[4] Frank Zappa, “Florentine Pogen’, One Size Fits All, 1975.

[5] Out To Lunch, “Frank Zappa: The Negative Dialectics of Poodle Play Part One’, A vision Very Like Reality, ed. Peter Ackcroyd, Ian Patterson, Nick Totton, Dezembro 1979, p. 22. Estas palavras também serviram como texto para um concerto para leitor, orquestra e guiterra eléctrica de Simon Fell, Four Slices of Zappa, 1992.

[6] Frank Zappa “Cheepnis”, Roxy & Elsewhere, 1974.

[7] Um preâmbulo que se estende ao resto do prefácio e aos próximos cinco capítulos. Os leitores que queiram passar à frente e ir ao âmago da questão, podem ver a discussão sobre “cuecas” na secção intitulada “Roxy & Elsewhere” no Capítulo 5: Da Bizarre à Discreet.

[8] O termo pós-modernismo é notoriamente vago, mas apesar disso foi bem resumido por Anna Copeland: “Uma reacção a tradições intelectuais que tentam explicar o mundo usando conceitos universais como os modelos freudianos da personalidade, teorias marxistas da economia, ou as explicações causa-efeito usadas pelos historiadores, o pós-modernismo vê a vida no final do século-vinte como uma série de acontecimentos desconexos, um self-service de narrativas ou dissertações que competem para obter atenção.” “Two Cultures: A Reader’s Guide”, Omni, Vol. 16, No. 2, Novembro 1993, p. 44. É contra pós-modernismo deste jaez que as habilidades do caniche se opõem (juntamente com Alex Callinicos; vejam o seu Against Postmodernism: A Marxist Critique, 1989).

[9] Audiência no senado sobre “pornografia no rock”, 1985.

encenada por Pedro Marques às 20:01

10
Jan 12

Objetos voadores ao sol

Novas nuvens no planador

Tirantes de plástico mole

Ele e ela - o amor

 

Lagostas suadas ao sol

Verde rosa pela paz

Explosão de plástico mole

Repetida num bordel ao sol

 

Deus de plástico mole

Careful with that axe, Eugene

Um planador voador ao sol

Explosão repetida - um bordel ao sol

 

Ele e ela na casa de Verão

Lagostas verdes de plástico mole

Nuvens rosa na explosão

Um bordel ao sol

 

Novos planos nos prédios da cidade

Aberta ao mal

Plástico mole nas fardas

Da explosão

Ele e ela pela paz

Num bordel ao sol

encenada por Pedro Marques às 12:43
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02
Jan 12

Primeiro post do ano: e o primeiro para dizer que este ano vai ser melhor do que pensamos. Para sair fora desta terrível e estúpida tendência que diz que o ano 2012 vai ser pior que 2011. Ainda estamos a dia 2 de Janeiro e já estou farto de ouvir toda a gente, desde as pessoas na rua aos manequins na televisão, passando pelos anónimos ao telefone e no eco das nossas consciências de que o ano vai ser mau, horrível, vamos ficar sem isto e sem aquilo, os impostos vão subir, o desemprego vai subir, o primeiro-ministro quer que a gente emigre para mandar dinheirinho para cá, os canadianos perceberam isso e expulsam-nos, o dólar e a libra continuam a sua guerra surda à Europa, a Europa assiste enquanto os seus amigos anglo-saxónicos assobiam para o lado como se não soubessem de nada. Ao mesmo tempo os chineses compram a Europa a retalho, a preços baixos, os mesmos preços baixos que fizeram a mão de obra ocidental deslocar-se para o Extremo Oriente, os brasileiros preparam-se para os jogos olímipicos e o mundial de futebol para finlamente fazerem parte do mundo desenvolvido. O mundo está em profunda mudança. Que melhor notícia podíamos ter?

Está a terminar o mundo do desperdício, o mundo que via a economia como consumo, esse mundo ainda se agita, na esperança de que as coisas possam voltar atrás, mas não, o mundo já é outro, em 2012 iremos assistir à queda de todas as crenças obsoletas: desde a ganância pelo novo gadget ao fanatismo pelo benfica ou por fátima, desde a irresponsabilidade da poluição e destruição do ambiente à reinvindicação de um local de trabalho estável, duradouro e perene.
O mundo já não está para essas coisas, o mundo está em mudança, e que bem que está, em Portugal está em mudança para pior, no que diz respeito ao dinheiro que iremos ter nas nossas contas bancárias, mas o que é que isso interessa para a nossa felicidade? É claro que precisamos de dinheiro para viver, etc... bla bla, mas precisamos de estar endividados por causa das férias a Cancun em 2005 que ainda estamos a pagar, precisamos realmente de mudar de carro todos os anos para sermos felizes? Precisamos realmente de fazer obras numa casa acabada de construir? Precisamos realmente de gastar dinheiro em coisas inúteis? Porque não mudarmos as nossas prioridades para os livros, a música, o cinema (europeu e português), o teatro, a dança? Porque não, para quê continuar a insistir?
Nós temos um país periférico, virado para o oceano, o que é muito melhor que viver no meio da Europa, cheia de neve e influência germânica. Nós somos um país privilegiado porque temos o oceano como companhia e possibilidade. Para o resto da Europa somos periféricos, mas também somos a entrada da Europa. Se ao menos tivessemos a visão estratégica para perceber isso, se ao menos tivessemos políticos que quisessem ver isso e não apenas o dinheiro que gastamos a mais, se ao menos os nossos partidos não vivessem apenas para ganhar votos e se venderem à primeira oportunidade... If only...
Por tudo isto e mais ainda, estou otimista, 2012 será o ano em que iremos deixar de gastar aquilo que não podemos, deixaremos de consumir demais e começaremos então a ser parcimoniosos no gozo que temos pela vida... é este o meu desejo para o ano...

encenada por Pedro Marques às 10:57

02
Nov 11

A pedido de um número de pessoas crescente, aqui fica o novo hino nacional português (também se deve aplicar à Grécia, Itália e outros pigs...)

 

 

HERÓIS DO MAL

POBRE POVO

NAÇÃO DOENTE

E MORTAL

EXPULSAI OS TUBARÕES

EXPLORADORES DE PORTUGAL

ENTRE AS BURLAS DA VERGONHA

Ó PÁTRIA CALA-LHE A VOZ

DESSA CORJA TÃO FEROZ

QUE HÁ-DE LEVAR-TE À MISÉRIA

PRÁ RUA PRÁ RUA
QUEM TE ESTÁ A ANIQUILAR

PRÁ RUA PRÁ RUA

OS QUE SÓ ESTÃO A CHULAR

CONTRA OS BURLÕES

LUTAR LUTAR

 

encenada por Pedro Marques às 20:31
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04
Ago 11

APRESENTA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Picnic, Why?


ou

 

Isto não é um tributo a Frank Zappa

 

FLIP – Bateria, kazoo, voz

MIKAO – Voz, percussão

ZÉ PAULO – Baixo

RODNEY – Clarinete, voz, percussão

VASQUO – Teclas, voz, kazoo

RUTH – Guitarra, voz

 

Quando estes seis se puseram a vasculhar nos baús da sua música preferida, Frank Zappa foi o nome que todos escolheram para homenagear. Este espectáculo é uma homenagem, portanto. Mas não é um tributo. Tributar, quer dizer pagamento, imposto. Homenagear, não. Homenagear é festejar a música – Music is the best.

Escolhemos cerca de 20 temas/músicas/canções das cerca de mil que Frank Zappa escreveu durante os 30 anos de carreira. Esses vinte temas podem ser ouvidos em diferentes versões nos seus discos, consoante o tipo de banda que Frank Zappa tinha à sua disposição. É essa agilidade do compositor que procuramos. Estes arranjos serão únicos, originais – You can’t do that on stage anymore.

 

THE MAMMY ANTHEM – Originalmente, baseámo-nos no disco You Can’t do That on Stage Anymore Vol.1. Mas depois ouvimos a versão do disco Thing-fish, completamente cantada e decidimos fazer uma introdução às vozes com o coro we’d be looking good with the mammy nuns.

Afinal, nós somos as mammy nuns.

 

JOE’S GARAGE – É a Canoga Park que vamos parar. Recordando os velhos tempos na garagem do Joe (João?) a tocar ri-tu-ti-tu-ti-tu-ti-nu-ni-nu-ni. Sempre os mesmos acordes. Até parecer uma sinfonia. É uma canção nostálgica para aqueles que já têm idade para isso. A propósito, Zappa tinha 39 quando a escreveu... The years are rollin’ by...

 

MAGIC FINGERS – Depois do confronto com a polícia na garagem do Joe, os nossos seis magníficos músicos prosseguem para os prazeres da noite. Todos eles gostam de rollin’ on the bed mas aposto que nem todos conseguem dar eighty, ninety times, it must have been a hundred todos os dias. O espírito rock tá no meio de nós.

 

SHOVE IT RIGHT IN – O imaginário dos seis heróis é delirante. Nesta música espiamos uma dessas beldades dos prazeres da noite antes de NOS ir atacar: The secret-stare she would use if a worthy-looking victim should appear. Ela agacha-se, ela agacha-se, mesmo por cima de nós. Practisissing, Practiss, Practicing!

 

HUNGRY FREAKS, DADDY – Num súbito ataque de sobriedade, os nossos seis heróis decidem levar-se a sério e auto-denominam-se dadaístas-esfomeados. Those who aren’t afraid to say what’s on their minds (The left behinds of the great society). É uma canção política – com solo de guitarra.

 

WHAT’S THE UGLIEST PART OF YOUR BODY? – Mais uma canção política, desta vez sem solo de guitarra. Uma pergunta que levanta algumas respostas. Qual delas está certa? I think it’s your mind.

 

ABSOLUTELY FREE – Os nossos heróis viajam agora por entre diamonds on velvets on goldens on vixen on comet & cupid on donner & blitzen, on up & away & afar & a go-go. Tentam abrir a nossa mind para as inanidades do dia a dia. There is no time. E lembra-te que só serás completamente livre se o quiseres realmente SER.

 

WHAT’S THE UGLIEST PART OF YOUR BODY? reprise – Os nossos seis demonstram como agiriam se os seus cérebros fossem a parte mais feia do seu corpo... freak out!

 

IT CAN’T HAPPEN HERE – As seis mammy-nuns/heróis/megafones-do-destino encontram-se no mundo onde a mente pode vaguear completamente livre. Talvez dentro de um piano, quem sabe? Os seis cérebros estão ligados apenas por delicados fios telepáticos. É um tema introspectivo, nostálgico – i remember tu-tu.

 

SOFA #1 – O delírio mental torna-se agora alemão. E numa bonita melodia em ¾ temos a sensação de que é bom voltar à ordem. O passo é de marcha, marcado pelas botas das nossas consciências, voltamos à realidade, ao nosso universo. Eu estou aqui e tu és o meu sofá, Universo. Ich bin alle Tage und Nächte.

 

WONDERFUL WINO – O regresso à realidade leva os seis de volta aos prazeres da noite, ao vinho. O ano é 1969, o local é Los Angeles, bêbados, arrastam-se pelas ruas, mijam na relva dos jardins, são uma vergonha até para eles próprios. I find myself now living in a cardboard refrigerator box down by the Houston dump. Acabam a pedir 5 euros e uma refeição quente, e se puder ser, um sobretudo.

 

SHARLEENA – No cúmulo do desespero, os nossos heróis cantam para as suas amadas, que no caso se chamam todas Sharleena, tentando mitigar os seus males. São profundos lamentos. Sharleena-leena cry-y-y-y-yin well hear me cry-y-y-y-yin.

 

CRUISIN’ FOR BURGERS – Pesadelos de liberdade total invadem as mentes deles. Os bilhetes de identidade são falsos, na verdade the difference between us is not very far. Os nossos bilhetes para a liberdade são falsos também, tal como a segurança que dizemos sentir. Estamos todos excitados por nada. My phony freedom card brings to me instantly: Ecstasy.

 

CONCENTRATION MOON – Os pensamentos de liberdade levaram-nos aos E.U.A. Corremos em plena liberdade com os nossos amigos, pelo nosso corpo cresce-nos pêlo, é o modo de vida americano: cop killed a creep: pow pow pow.

 

MOM & DAD – Esta é a história de um casal que vê uma carga policial sobre os creeps/freaks/megafones pela televisão e pensa: It served them right. Alguns dos jovens morrem. Mais tarde o casal descobrirá que a filha estava entre eles. É uma tragédia. Mas, afinal de contas, faz parte do nosso dia-a-dia.

 

MAGDALENA – Mais uma música sobre pais disfuncionais. Desta vez é um pai canadiano apaixonado pela sua filha. Ele não se consegue conter, ela é o puro objecto do desejo, a mãe tá a jogar bridge com as amigas e nunca saberá. O desespero do pai irrompe aqui na pele dos nossos desejos mais obscuros. O pais justifica-se: I work so hard, don't you understand, make maple syrup for the pancakes of our land. Do you have any idea of what that can do to a man? O tema termina com a sirene da autoridade, mais uma vez.

 

DOG’S BREATH – Os nossos seis tornam aos seus mundos, nos seus chevy ’39 percorrem as ruas das nossas cidades, incluindo o El Monte Legium Stadium, com bongos no banco de trás, prontos para atacar nos seus ship of love. As naves do amor imploram até ao fim por uma noite de amor: hear my plea.


09
Jul 11

Morreu hoje o músico e musicólogo português Jorge Lima Barreto. O mais importante teórico da sua geração deixou-nos uma vasta obra de livros "Música Minimal Repetitiva"; "Zapp Estética Pop Rock"; "Rock & Droga" são alguns dos títulos. Foi, com Vítor Rua, membro fundador dos Telectu. Ler aqui o artigo que escreveu dedicado ao seu companheiro.

É uma grande perda para a cultura e para a música portuguesa. Morreu aos 61 anos, vítima de pneumonia. Ver notícia no Público.

Enquanto esperamos por alguma notícia oficial do governo a distiguir este nome maior da cultura portuguesa, não podemos deixar de indagar para onde vai o seu enorme espólio que contém milhares de discos, livros, instrumentos, escritos vários e outras coisas que qualquer país gostaria de ver catalogados e inventariados para consulta. Esperemos, pois.

Aqui o texto de António Barros sobre a sua vida.

E aqui o belo texto do blogue Nova Casa Portuguesa.

encenada por Pedro Marques às 17:30

06
Jul 11

"Não há dúvida de que Zappa como líder, compositor, arranjador e produtor, tal como executivo de editora discográfica, director executivo e realizador de filmes/vídeo era um patriarca; Zappa geria as bandas e o seu negócio como uma ditadura benevolente, muito à maneira dos patriarcados das velhas escolas onde foi criado. Desde as primeiras gravações, Zappa transpirava o mesmo tipo de saber-fazer que marcou o melhor espírito empreendedor americano demonstrado no seu espírito de restauro; restaurar gravações velhas, editá-las e renová-las (como ele fez no caso de Lumpy Gravy ou quando a Warner Brothers se recusou a lançar o álbum Läther); e usava as novas tecnologias no estúdio, trabalhando sempre nos seus limites. Mais, apesar de algumas opiniões contrárias, Zappa era uma pessoa extremamente generosa. Durante toda a carreira sofreu muito para ajudar a carreira de outros (Alice Cooper, Captain Beefheart, as G.T.O.s) e tinha muitas vezes pessoas, amigos, parentes, e empregados a viver na sua casa durante dias (às vezes semanas ou anos), e, apesar de não parecer apreciar assim tanto, Zappa falava sempre com repórteres e estudantes. Zappa, apesar de algumas provas em contrário, era realmente um optimista, no fundo, que parecia acreditar no fundamental sonho americano: se trabalhares no duro e fores honesto, então és bem sucedido. Apesar de tudo, a sua vida foi uma longa série de desilusões profissionais."

 

Kelly Fisher Lowe in The Words and Music of Frank Zappa, University of Nebraska Press, 2007.

encenada por Pedro Marques às 12:46

30
Jun 11

As eleições do princípio do mês em Portugal marcaram uma viragem à direita do país. Mais grave ainda, mostraram-nos que 85% dos representantes do povo são a favor do Memorando assinado com a Troika (BCE e FMI). Por isso, estamos todos agarrados ao cumprimento de várias medidas de austeridade, descidas de salários, aumento de impostos, etc, sempre as mesmas medidas dirigidas aos mesmos. Na Grécia vemos aquilo em que o nosso país se vai tornar daqui a um ano se cumprirmos estas medidas cegamente sem ter em atenção o crescimento económico.

 

Portugal foi tomado de assalto pelos partidos do regime.

Pelos partidos políticos que venderam, retalharam, sufocaram, estriparam o país em sucessivos governos desde, pelo menos, 1986 - desde aquela nova oportunidade que se chamava CEE. Esses partidos são responsáveis pelo estado calamitoso a que o país chegou. Mas, dito isto, devemos também perceber o que significa esse estado de calamidade. Este medo crescente, esta pressão constante tem uma origem apenas, e chama-se CAPITALISMO e a sua ORDEM FINANCEIRA. Reparem que não digo "capitalismo selvagem" ou "desregrado" ou qualquer outro eufemismo com que costuma ser baptizado para designar a selvajaria do mundo de hoje. Não, falo do Capitalismo que tem por base o "lucro" (filho de Adam Smith e outros economistas criminosos) e o nosso sistema financeiro que destruiu a pouca economia que ainda mantinha uma relação mais ou menos clara com o TRABALHO. Hoje em dia, o trabalho realizado não tem nada a ver com o preço dos produtos. Em Portugal, como no mundo, o que frutifica são os produtos financeiros, a (mentira) da publicidade, o esquema jurídico e policial que mina as instituições, sejam elas quais forem, a fama desportiva e artística completamente deslocada da realidade, desde os ordenados milionários do Ronaldo aos prémios chorudos de Hollywood. Aquilo que medra, hoje em dia, em geral, é a mediocridade das relações das pessoas, completamente afastadas e destituídas da sua razão de viver. Pessoas normalmente bem formadas, educadas e civilizadas, tornam-se em animais sedentos de competição dependendo do sítio onde se encontram, dependendo dos seus "interesses" legítimos.

 

É neste caos de relações destruídas, de pessoas e instituições, estados e organizações internacionais, que temos de salvar a Grécia ou bombardear a Líbia, temos de pressionar o Irão e beatificar Israel, é neste vórtice que torna o nosso mundo também tão interessante que temos de discernir aquilo que nos mais convém e lutar por aquilo em que acreditamos. É isso que faço todos os dias. É isso que faço neste momento.

 

Um blog é aquilo que as pessoas que o lêem fazem dele e não aquilo que o seu criador quer que ele seja. Tenho a noção de que aquilo que escrevo tem pouco ou nenhum alcance na nossa sociedade portuguesa podre, mas nem essa céptica noção me leva a calar-me.

 

A nossa sociedade, capitalista, financeira, competidora é um embuste. Acho que é isso que quero dizer. Precisamos de uma nova economia, uma economia que seja mesmo "económica" e não como é agora, uma economia que "consome". Consumir o mais possível não é, nem nunca foi, economizar. Consumir com base na publicidade (enganadora) ou naquilo que nos dizem que temos de comprar (seja o sabonete para combater os vírus, seja os pepinos estragados, seja o antrax, etc.) só perpetuará a ordem multinacional dos produtos e encherá os bolsos daqueles que realmente mandam neste jogo viciado: os bancos centrais.

 

O meu conselho é: não acendam a televisão, não se deixem enganar pelo medo com que nos mantêm em rédea curta. Ignorem-nos. Forjem um mundo novo dentro da vossa casa e depois exportem-no para a rua, mas não se deixem enganar por aquilo que vos dizem os Marcelos e os Sousa Tavares e os pivots dos telejornais.

 

Falta pouco para irmos para a rua como os gregos. Mais exatamente um ano. :)

encenada por Pedro Marques às 11:18
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18
Jun 11

Hoje há oportunidade para ir ao Festival Zappamundo integrado nas Festas de Corroios.

É a não perder as quatro bandas dedicadas à música de Zappa, entre elas, os Tarentatec da Alemanha, que já estiveram cá em Dezembro e deram um grande espetáculo.

 

encenada por Pedro Marques às 13:20

21
Mai 11
encenada por Pedro Marques às 18:52

encenada por Pedro Marques às 18:50

encenada por Pedro Marques às 18:35

05
Mai 11
Regra 1 – A vida não é fácil: – habitua-te a isso.  
Regra 2– O mundo não está preocupado com a tua auto-estima. O mundo espera que faças alguma coisa útil ANTES de te sentires bem contigo mesmo.  
Regra 3 Não ganharás 10.000 euros por mês assim que saíres da escola. Não serás vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição enquanto não os tiveres ganho por ti próprio.  
Regra 4 Se achas que o teu professor é duro, espera até teres um Chefe.  
Regra 5 – Virar frangos ou trabalhar durante as férias não está abaixo da tua posição social. Os teus avós têm uma palavra diferente para isso: oportunidade.  
Regra 6 Se fracassares, não é culpa dos teus pais. Por isso, não lamentes os teus erros, aprende com eles.  
Regra 7 Antes de nasceres, teus pais não eram tão chatos como são agora. Eles só ficaram assim por terem de pagar as tuas contas, lavar as tuas roupas e ouvir-te dizer como tu és fixe (e eles são “ridículos”). Por isso, antes de salvares o planeta para a próxima geração, querendo emendar os erros da geração dos teus pais, experimenta arrumar o teu próprio quarto.  
Regra 8 – A escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não. Em algumas escolas já não chumbas e tens tantas  oportunidades quantas precisares até acertares. Isto não tem a mais pequena semelhança com absolutamente NADA na vida real. Se não fizeres bem, estás despedido… RUA!!!!! Faz as coisas bem à primeira!  
Regra 9 A vida não é dividida em semestres. Não terás sempre os verões livres e é pouco provável que algum patrão esteja minimamente interessado em que te "encontres". Trata disso no teu tempo livre.  
Regra 10 – Televisão NÃO é vida real. Na vida real, as pessoas têm de sair do bar ou da discoteca e ir trabalhar.  
Regra 11 – Sê simpatico para com os marrões (aqueles estudantes que todos julgam que são uns totós). Há uma grande probabilidade de que venhas a trabalhar PARA um deles.
Dumbing Down our Kids de Charles Sykes.
Tradução de João Carlos Soares (acho).
encenada por Pedro Marques às 22:41

 

E pronto. Já está. Foi feito um acordo com o FMI e o BCE. Vão emprestar-nos 78 mil milhões de euros. Vamos endividar-nos ainda mais. A bola de neve prossegue o seu caminho.

Como é que vamos pagar? Não se sabe.

O país vai crescer? Nos primeiros anos, não. Depois crescerá, dizem. Ahahahah.

E quem vai pagar? Nós.

Outra vez. Vamos ser nós outra vez a dar dinheiro ao FMI, a juros de 3% primeiro e depois de 4%.

E a pergunta mantém-se.

Vieram eles ajudar-nos? Deixem-me rir.

Um banco a ajudar as empresas, o povo, o país?

Mas nós acreditamos mesmo nisso?

Como vamos nós pagar se continuamos a não produzir nada que nos distinga no mundo?

Como vamos nós sobreviver como país quando este dinheiro desaparecer?

Pedimos outro empréstimo?

Nas televisões, os técnicos pululam, descobrindo falhas, mostrando que o FMI é tudo menos inocente. Eles exigiram medidas, mas aquilo que eles queriam era conceder o empréstimo, mais nada. As medidas são uma fachada. Vamos ter de ser nós a resolver o problema, a suportar as medidas de austeridade, a trabalhar mais (sempre), a produzir o mesmo, a descontar aquilo que não é razoável enquanto o país, assente na mesma contradição de sempre, se vai endividar ainda mais.

Há pessoas na RTP que dizem que o Estado está gordo, tem empresas a mais, funcionários a mais, jobs a mais, concordo, mas as pessoas que o dizem com mais radicalismo são as mesmas que depois vemos em organismos do Estado a ganhar o seu salário acima da média, a usufruir as suas garantias como o 13º e 14º mês, a rezar por pontes e feriados, a adormecer depois do almoço para depois entrarem no seu carro último modelo em direcção à fila de carros mais próxima, até chegarem a casa hipotecada onde poderão invetivar contra o Estado.

É nessa contradição que estamos. O PSD e o PS endividam o país, mas estão desejosos de chegar ao poder para poderem retalhar este empréstimo pelos seus apoios. Ou pensam que o investimento que tem de ser feito irá para concursos isentos, onde ganham sempre os mais competentes e impolutos cidadãos? Não. Não será assim. Não será assim enquanto o nosso país não apostar em unidades de produção de uma ideia estratégica, seja ela qual for. Este é um país endividado e por conseguinte nas mãos daqueles que nos emprestam dinheiro (alegremente). Para que depois nós lhes paguemos com os nossos sistemas de saúde, de seguros, de água, de educação, aqueles sistemas que garantem o mínimo de equidade na nossa sociedade.

O 25 de Abril foi, de facto, o momento mais alto da nossa democracia, daí para cá temos sido sempre menos independentes. Revolução nas próximas eleições já! Votem!

encenada por Pedro Marques às 12:57
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21
Abr 11

 

 

 

encenada por Pedro Marques às 20:11

14
Abr 11

O pedido de ajuda de Portugal para as suas dívidas junto do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia na última semana deve servir de aviso para todas as democracias. As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos correctores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.

Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas. As dificuldades de Portugal eram admitidamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e o repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas despoletou imediatamente os pedidos de resgate.

Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações. O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate.

O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos. A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.

E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental. Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite?

Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — na assistência aos pobres.

A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e os partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.

Para fazer justiça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e ao gasto excessivo; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou-se no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países. Não se podem culpar as políticas domésticas.

O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou o senhor Sócrates a demitir-se este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal acenaram. Podia a Europa ter evitado este resgate?

O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel em fomentar a crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política. No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, os Estados Unidos incluídos.

A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais. Os americanos não iriam gostar muito se instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas.

Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora acontece em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino. Apenas governos eleitos e os seus líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.

 

Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame.

encenada por Pedro Marques às 13:48
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10
Abr 11

Ouvir um disco dos Radiohead pela primeira vez é sempre uma entrada no desconhecido, certo, a originalidade e genuinidade destes músicos está, em princípio, garantida, mas não é um desconhecido total. É, certamente, um desconhecido que se revisita: deixamo-nos levar pelos ciclos de bateria e outros instrumentos cuidadosamente preparados, a voz de Tom Yorke levanta voo nas mais pequenas frases melódicas, o baixo inventa novos retornos, as guitarras aparecem e desaparecem ao sabor do arpejo e da frase melódica simples.

A temática das letras é mais uma vez sombria, como quase toda a poética com que nos brindaram até agora. Pequenos feitiços, sombras, sonhos, sobrepõem-se a memórias que nos assombram, reflectem-se nas paredes das nossas vidas frenéticas como baterias programadas por computador. A voz de Yorke plana por cima de todo o edifício sonoro como se fosse uma ave de rapina, pronta a arrancar da terra que são as nossas vidas mais um pedaço de coração, ou, então, a plantar nela as raízes do sonho.

The King of Limbs, o novo disco dos Radiohead.

"Bloom" abre com uma sucessão de samples em contraponto rítmico com o baixo, quando a voz entra é como se Hammill tivesse aterrado na América do Sul. O contraste entre as melodias de Yorke e os padrões rítmicos obsessivos levam-nos para esses lugares onde trompetes dão lugar a sintetizadores em franca confraternização.

"Morning Mr. Magpie" leva-nos para as paisagens mais funk que os Radiohead nos conseguem oferecer, um monólogo de Yorke em jeito de desabafo contra uma suposta pega que lhe roubou a sua magia. Good Morning Mr. Magpie, how are you today? As baterias electrónicas e o baixo conjugam-se brilhantemente a meio da música, Yorke uiva delicadamente ao lado de harmónicos de guitarra.

"Little by Little": delicio-me com a guitarrinha vinda dos anos 60 que repete sempre a mesma frase melódica, o ritmo aproxima-se do Brasil, Yorke revela mais preocupações com os fracassos artísticos, a legitimidade e o "eu" psicológico.

O instrumental "Feral" abre com um ritmo de bateria das pistas de dança, um padrão frenético contraposto por vozes e outras percussões. A meio, um baixo sintetizado, meio sambado, toma conta do ritmo.

"Lotus Flower" leva-nos de volta às melodias de Kid A, as baterias electrónicas contrapõem-se com o seu tom de ameaça, uma frieza que reconhecemos em Zappa dos anos 80. É o amargo-doce de composições como "Everything In The Right Place" de Kid A. Yorke é mais uma vez invisível dentro do nosso bolso, numa alusão aos ipods, diz-nos que tem(os) um lugar vazio dentro do seu coração onde poderão ser plantadas as raízes de todos nós flores de lótus.

"Codex" é uma sucessão de acordes vindos dos anos 70 de puro deleite pela voz de Yorke, Richard Wright, talvez, em memória, pairando numa balada onde a voz wyattiana é magnificamente contraposta a um arranjo de feliscornes. A gravidade do piano revela o momento dramático de alguém a saltar do "fim para um lago límpido". O final introduz um arranjo para cordas que desagua na música concreta com que "Give Up The Ghost" se inicia. O refrão, "don't haunt me" ("não me assombres", algo que se diz a uma memória que nos persegue) é repetido continuamente, passando por todos os estados, deixando até de ter significado pela repetição, para o ganhar mais uma vez, no final, quando os violinos se sobrepõem ligeiramente à mistura de guitarras e vozes; um riff de guitarra, contraponto da melodia bela e inspirada de Yorke; violinos juntam-se em harmonia para um final entregue finalmente à música concreta.

"Separator" é a última música do pequeno disco dos "Radiohead", um ritmo pop mais relaxado, repetitivo, sem quebras, a sensação é de continuidade,  alguém cai de dentro de um sonho, as coisas parecem acabar mas na realidade estão prestes a recomeçar, os sonhos vão-se sucedendo até não se saber o que é sonho e o que não é. As guitarras vão sendo adicionadas apontando novos caminhos, para maior abertura harmónica que Yorke aproveita para criar melodias com notas inesperadas como pesadelos e tragédias ou pura simplesmente um sorriso sincero.

The King of Limbs é o oitavo disco dos Radiohead mas podia ser o quarto ou o quinto, a busca que se iniciou em Kid A ainda não terminou. Não é um álbum de passagem, ou menor, como podíamos pensar, nem uma consolidação das mesmas coisas, é apenas um desconhecido, que pode ser tão próximo como o aprender de um truque. O desconhecido não precisa de ser longínquo nem complexo, pode estar debaixo do nosso nariz, tal como o rádio que todos temos dentro das nossas cabeças.

Álbum surpreendente. Espero que venham cá a Portugal.

encenada por Pedro Marques às 16:33

03
Abr 11

 

Quando ouvi as palavras do António Manuel Ribeiro pela primeira vez na rádio, devia correr o ano de 1979 em todo o seu esplendor e eu tinha 10 anos. Foi nesse dia que eu aprendi o que era uma metáfora.

Não sabia dizer a palavra, claro. Mas com a música dos UHF percebi que a corrida que estoirava era a corrida para a vida, onde os animais se lançam no esforço, sempre, com toda a violência em jogo e onde os outros nos rodeiam, aplaudem e nos picam, violando todas as leis, passando ao assalto a qualquer preço. E nós somos os cavalos de corrida, como hamsters a correr sempre às voltas da mesma roda - agora tu és um hamster de competição. E ele tinha razão, hoje, mais do que nunca, galopamos já feridos, perdemos o juízo ao apostarmos nesta cartada que chamamos capitalismo, uma rotina Zé ninguém, um massacre igual às notícias que vinham de El Salvador e que ouvi também nesses tempos, essa latin'america dos Jafumega que outros glorificavam no reggae - Sting em Driven to tears ou When the world is running down you make the best of what's still around, ou de Bruce Springsteen em Born To Run. Quando António Manuel Ribeiro escreveu esta letra metaforizou a sociedade - ensinou-me o poder da arte, do rock, para moldar e iluminar espíritos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora é que a corrida estoirou e os animais se lançam no esforço.

Agora é que todos eles aplaudem a violência em jogo.

Agora é que eles picam os cavalos, violando todas as leis.

Agora é que eles passam ao assalto e fazem-no por qualquer preço.

Agora, agora, agora, agora, tu és um cavalo de corrida

Agora, agora, agora, agora, tu és um cavalo de corrida

 

Agora é que a vida passa num flash e o paraíso é além

Agora é que o filme deste massacre é a rotina Zé Ninguém

Agora é que perdeste o juízo, a jogar esta cartada

Agora é que galopas já ferido, procurando abrir passagem

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida

Agora, agora, agora, agora tu és um cavalo de corrida, eh

encenada por Pedro Marques às 14:55
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29
Mar 11

Tradução do artigo que saíu ontem no Sunday Independent, o mais importante jornal irlandês.

 

Caro Portugal,

 

daqui fala a Irlanda. Eu sei que não nos conhecemos muito bem, embora eu tenha ouvido dizer que alguns dos nossos governantes te acompanham no caminho da recessão.

E provavelmente vão continuar por lá por algum tempo. De qualquer forma, eu não quero intrometer-me, mas li acerca de ti nos jornais e parece-me que talvez te possa dar alguns conselhos acerca de onde estás e do percurso que te espera. Como diz agora a anedota, qual é a diferença entre Portugal e a Irlanda? Cinco letras e seis meses.

De qualquer forma, notei que estás sob pressão para aceitar um resgate embora os teus políticos se afirmem determinados para não o aceitar. Será, dizem eles, sobre os seus cadáveres. Na minha experiência isso quer dizer que vão receber o resgate em breve, provavelmente no domingo. Primeiro deixa-me explicar algumas nuances da língua inglesa. Uma vez que o inglês é a vossa segunda língua, talvez penses que as palavras ‘bailout’ e ‘aid’ significam que vais receber ajuda dos nossos companheiros europeus para ultrapassares as tuas actuais dificuldades. O inglês é a nossa primeira língua e isso era o que nós pensávamos que essas palavras significavam. Deixa que te avise, que não só este resgate, quando te for inevitavelmente forçado, não te vai ajudar a resolver os vossos problemas, como vai prolongar esses problemas para as próximas gerações.

Por este ‘favor’ vão esperar que te se sintas agradecido. Se quiseres procurar a palavra certa em português para ‘bailout’, sugiro que pegues num dicionário inglês-português e procures palavras como: ‘moneylending’ (empréstimo de dinheiro), ‘usury’ (usura), ‘subprime mortgage’ (hipoteca de alto risco) ou ‘rip-off’ (roubo). Todas estas dar-te-ão uma tradução mais precisa daquilo que te vai acontecer.

Percebi também que vais mudar de governo nos próximos meses. Perdoa-me que me permita um pequeno sorriso sobre isso. Fica à vontade, põe lá uma camada fresca de tinta sobre todas essas brechas na tua economia. Aproveita para apreciar o cheiro da tinta fresca enquanto ele durar.

Nós também arranjámos um novo governo e foi uma bela diversão durante algumas semanas. O que vais verificar é que o novo governo virá do meio de um sentimento de euforia das pessoas. O novo governo fará todo o tipo de promessas durante a campanha eleitoral, sobre como reduzir a dependência externa e sabe-se lá mais o quê, e a UE vai sorrir benignamente enquanto eles prosseguem a conversa fiada.

Depois, esse governo vai subir ao poder, vai começar por ir à Europa e atirar alguns números. Talvez até ganhem alguns eventos desportivos contra um velho inimigo, seja ele quem for, e talvez atraiam a visita de alguns dignitários internacionais como o Papa ou outros. Haverá um sentimento agradável no ar e toda a gente se vai refugiar nessa ilusão durante algum tempo.

E, Portugal, aprecia isso enquanto durar. Porque a realidade vai estar à espera para se voltar a intrometer logo que a diversão acalmar. A vantagem é que o preço do golfe se tornou muito competitivo por aqui. Provavelmente vai acontecer o mesmo aí em baixo, espero encontrar-te nessa altura.

 

Beijos, Irlanda.

encenada por Pedro Marques às 02:16

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