Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
A INVENÇÃO DE SISTEMAS DE ESCRITA

Durante aproximadamente 40 000-50 000 anos, à medida que as linguagens se foram desenvolvendo, inventavam-se novas tecnologias, mas também modos orais e expressivos de cultura que permitiam que determinadas sociedades e grupos se lembrassem, reflectissem, celebrassem e interpretassem as histórias que estavam em permanente evolução e as suas respectivas identidades através de modos de expressão orais/verbais, corporais e artísticos. Os percursores de sistemas de escrita completos apareceram há cerca de 100.000 anos quando os humanos começaram a inventar uma larga variedade de símbolos gráficos e mnemónicas (auxiliares de memória) para armazenar informação. Os símbolos gráficos eram normalmente reproduções de fenómenos comuns do mundo material como o sol, as estrelas, a fauna, a flora, as figuras humanas, e por aí adiante. Os auxiliares de memória como os nós de lembrança, os entalhes feitos em osso ou em bastões, ou os ideogramas tinham uma função linguística. Os nós de lembrança datam do primeiro período Neolítico e atingiram o seu auge com os Incas sul americanos quipus - e o seu sistema elaborado de contagem. Enquanto os nós e os entalhes gravam números, avivam a memória e sugerem categorias, as imagens podem gravar muito mais informação e também sugerir características e qualidades. Há dezenas de milhar de anos, a comunicação por imagens apareceu na primeira arte das cavernas e, em alguns nativos americanos, os ideogramas foram usados bastantes vezes para transmitir mensagens complexas sem recurso à linguagem. Nós, entalhes e ideogramas ficam "incompletos" ou são uma "pré"-escrita no sentido em que não usam as suas marcas ou imagens para comunicar um discurso articulado.

Os sistemas completos de escrita não evoluiram como a linguagem, foram antes inventados para comunicar discursos articulados através da gravação de marcas convencionais e artificiais numa superfície duradoura. A palavra escrita foi transformada em signo representativo. Na Mesopotâmia, fichas em barro foram usadas cerca de 8000 a.C. para contar grão e animais nos acampamentos rurais da região. Cerca de 3000 a.C., os sumérios na Mesopotâmia  conseguiram desenvolver, a partir de um reportório de ideogramas e símbolos, o primeiro sistema de escrita completo - a escrita cuneiforme. A escrita cuneiforme é uma forma de escrita raspada ou inscrita em pedaços de barro com uma ferramenta pontiaguda (agulha). Com a invenção dos sumérios, os indivíduos começaram a ler um sinal inscrito em barro como um som com um valor independente.

Por volta de 2500 a.C. a escrita cuneiforme simples era capaz de "comunicar qualquer pensamento... preenchendo adequadamente as necessidades da sua sociedade". As primeiras inscrições são listas de pagamentos, de bens, de pessoas, etc. De todas as inscrições cuneiformes descobertas, 75 por cento são administrativas e contabilísticas. Os outros 25 por cento são escritos legais, religiosos, astronómicos e médicos, dicionários e receitas. Ainda, nestes 25 por cento - e mais significativo, para os nossos propósitos - são as primeiras e as mais antigas das literaturas do mundo. Estas incluem hinos, lamentos, descrições de actividades dos deuses, e histórias quase épicas. Os trabalhos poéticos existentes incluem dois poemas de Enmerker, dois poemas de Lugulbanda, e um ciclo de cinco poemas conhecido como Gilgamesh. Os ciclos Gilgamesh datam aproximadamente de 2700 a.C.. Tal como os tardios épicos gregos, a Ilíada e a Odisseia, o épico Gilgamesh foi provavelmente uma compilação de histórias díspares relacionadas juntas e elaboradas por contadores de histórias e finalmente escritas após centenas de anos de representações e transmissão oral. Gozava de grande popularidade por todo o Próximo Oriente, e existem versões sumérias, hititas e hurritas.

A transição da comunicação oral para a escrita não foi universal, e o seu desenvolvimento teve lugar em épocas diferentes e com sistemas diferentes em culturas diversas e em períodos diferentes. O segundo caso que se pode documentar de um desenvolvimento independente de escrita é entre as sociedades de nativos americanos na América Central, provavelmente no sul do México desde aproximadamente 600 a. C. É possível que os modos de escrita de chineses, egípcios e da Ilha da Páscoa se possam ter desenvolvido independentemente. Quer isto seja o caso ou não, os linguistas concordam que todos os sistemas de escrita foram inspirados por, ou descendem directamente, dos sistemas sumérios ou da América Central.

Os primeiros povos letrados que desenvolveram a escrita, fizeram-no ao adaptarem e copiarem sistemas de escrita que encontravam. Por exemplo, na costa Norte da Síria, os escribas ugaritas semitas basearam-se nas formas da escrita cuneiforme suméria para escrever a linguagem hurrita. No Leste da Ásia, alguns estudiosos acreditam que foi no estado Shang na China central do Norte (cerca de 1500-1545 a.C.) que a primeira versão do sistema de escrita de caracteres chinês se desenvolveu (discute-se se originário da Mesospotâmia), que mais tarde influenciou os desenvolvimentos dos sistemas de escrita usados na Coreia, Japão e Vietname. No subcontinente da Índia onde se desenvolveram mais de 200 escritas, todas derivam de uma fonte - Brahmi - ela própria originária de uma fonte semita (provavelmente aramaica) de c253-250 a.C. O sucesso de um sistema de escrita em particular não quer dizer superioridade mas adaptabilidade. Não é "a eficiência de um sistema de escrita que determina a sua longevidade e influência, mas sim o poder económico e o prestígio daqueles que o usam... Um poderoso sistema de escrita da sociedade - o alfabeto de consoantes - marcará a história, enquanto uma sociedade fraca desaparecerá".

Os historiadores dos primeiros sistemas de escrita argumentam que a escrita nasceu apenas quando e onde havia necessidade de um sistema de escrita dentro de um contexto que fornecia as infra-estruturas sociais, económicas e humanas necessárias para ajudar os especialistas da linguagem escrita, como copistas, bibliotecários, professores, especialistas religiosos, poetas, e finalmente em alguns casos, dramaturgos e as companhias de actores/bailarinos que podiam fazer a apresentação de uma peça. Todas as sociedades que inventaram a escrita (Suméria, América Central, China, Egipto) ou foram precoces na criação dos seus próprios sistemas (Creta, Irão, Turquia, o Vale de Indus, as culturas Maia) "envolviam sociedades estratificadas socialmente, com instituições políticas complexas e centralizadas." Elas armazenavam excedentes de comida crescentes dos camponeses suficientes para apoiar estas instituições e especialistas.

A escrita nunca se desenvolveu em sociedades de caçadores-colectores organizadas em bandos ou tribos ou entre chefaturas mais sedentarizadas porque não tinham necessidade, nem instituições ou estruturas agrícolas necessárias para a apoiar. Por exemplo, em muitas das ilhas do Pacífico, a escrita foi desnecessária durante séculos. Em muitas sociedades do Pacífico os estados elaborados nunca se desenvolveram, por isso não havia necessidade de um sistema complexo de registo.

 

Philip B. Zarrilli

TradItore, Pedro Marques

 


etiquetas: ,

Postado por Pedro Marques às 18:11
link

Sábado, 30 de Janeiro de 2010
TEMPLO DA AMIZADE BASHKIR

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 19:01
link

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
AVATAR

É uma manifestação corporal de um ser imortal segundo a religião hindu, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatāra, que significa "descida", normalmente denotando uma (religião) encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.

 

Fonte: Wikipédia.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 23:29
link

Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
HISTÓRIA ESTÉTICA DO ROCK #7 BUDDY GUY

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 13:50
link

Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
NATAL E DÁDIVA

O desejo egoísta do lucro não só é incapaz de fundar qualquer sociedade como tende, pelo contrário, a inviabilizá-la.

 

Para o antropólogo francês Marcel Mauss, a dádiva estabelece ligações que não só estruturam as sociedades como são o combustível que as alimenta. A multiplicidade de funções do acto de dar, mas também de retribuir, opera a vários níveis nas nossas sociedades.

Os actos de partilha de bens têm especialmente lugar em ocasiões especiais – no caso estudado pelo livro Ensaio Sobre a Dádiva do antropólogo francês – da sociedade polinésia da Samoa: matrimónios, nascimentos, circuncisões, doenças, fertilidade das jovens, ritos fúnebres e comércio. Contudo, estas ocasiões são sustentadas por práticas quotidianas que assentam nos mesmos princípios  de partilha e comunhão e a que o antropólogo chama momentos em que o homem tem consciência de si mesmo e da sua relação com os outros – “apresentar qualquer coisa a alguém é apresentar qualquer coisa de si”.

Para o autor francês a dádiva e a retribuição são ainda o garante da paz e o primeiro contacto com o outro. O que ambos os lados ganham com este sistema de trocas, dádivas e tributos é uma organização dos indivíduos não só a nível público como a nível privado. Mesmo as acumulações de valores das várias riquezas que se constituem – e que podiam constituir alguma espécie de “não partilha” – têm um conteúdo estético, não representam apenas valores de ordem moral ou prática. O próprio carácter da dádiva define a ligação que ela pretende estabelecer; o acto de dar não está dissociado do presente dado.

Estas trocas são simultaneamente voluntárias e obrigatórias, interessadas e desinteressadas, mas também igualmente úteis e simbólicas. Toda a sociedade depende da troca de bens porque as dádivas são sempre uma forma de comunicação com o estrangeiro, com o outro, às vezes com o desconhecido. Do mesmo modo definimos o outro e através das dádivas somos justamente retribuídos. Assim fazemos nascer alianças, tanto matrimoniais como políticas, religiosas, económicas, jurídicas ou diplomáticas. Trocar é comunicar com o outro, é o primeiro passo para a socialização. A dádiva é, pois, o primeiro e último garante da civilização tal como a conhecemos. E como é óbvio, as alianças necessitam de paz para serem duradouras.

É como se o homem tivesse de descobrir o valor da dádiva para depôr as armas. Os bretões contam na Crónica de Artur, como o rei, com a ajuda de um carpinteiro da Cornualha, idealizou aquela maravilha da sua corte, “aquela Távola Redonda”, à volta da qual os cavaleiros nunca mais litigariam. Antigamente, por “invejas sórdidas”, ensanguentavam os banquetes mais belos com zaragatas estúpidas, duelos e assassinatos. O carpinteiro disse a Artur: “Construo-vos uma bela távola à qual se poderão sentar mais de mil e seiscentas pessoas e da qual nenhuma será excluída... Nenhum cavaleiro poderá fazer guerra, porque todos os lugares serão iguais”.

Não há lugar de honra, por isso não havia disputas. Para onde quer que Artur levasse a sua Távola, alegre e invencível se sentia a sua companhia. É assim que ainda hoje as nações se tornam fortes e ricas, felizes e sãs. Os povos, as classes, as famílias, os indivíduos poderão enriquecer, mas serão felizes apenas quando souberem sentar-se, como cavaleiros, à volta de uma riqueza comum. É inútil procurar muito longe o bem e a felicidade. Eles residem na imposição da paz, no ritmo ordenado do trabalho, colectivo ou individual, na riqueza acumulada e depois redistribuída, no respeito e generosidade recíprocas que a educação ensina.

Para Marcel Mauss, uma tribo de Samoa contém tantas informações sobre a nossa organização social quanto as crónicas do Rei Artur. Para ele, ambas demonstram que os diferentes regimes sociais tratam todas as coisas, dos bens às pessoas, passando pelo trabalho ou os serviços e ofícios religiosos, como matéria de transmissão e de entrega. Como garante de equilíbrio. O dar e o receber precisam de paz para florescer; para Mauss o contrário é também verdade: “recusar a dar, negligenciar o convite, como recusar receber, equivale a declarar guerra; é recusar aliança e comunhão”.

 

 

A DÁDIVA DO NATAL

 

Tentarei colocar o Natal no centro deste conhecimento sobre a dádiva.

À primeira vista, nas sociedades contemporâneas ocidentais, a época do Natal é a festa onde se trocam mais dádivas, onde o espírito de comunhão é mais exacerbado, ouvimos falar de solidariedade e de enfermidades, combatem-se com mais fervor as injustiças, lembramo-nos mais frequentemente dos outros. Mas será mesmo assim? Será mesmo de levar a sério todas estas preocupações? Reflectem-se no dia a dia? No tal conhecimento de si mesmo e da sua relação com o outro? E se não, porquê?

Em todo o mundo, o Natal é a festividade que celebra o nascimento de Jesus Cristo. Trata-se de um acontecimento intimamente relacionado com a igreja católica. Esta prática milenar foi sofrendo várias transformações e beneficiações ao longo dos séculos.

Na Idade Média emergiu a tradição do presépio através das ordens franciscanas, e cerca do século XIV a árvore de Natal, que simboliza Cristo, com as suas luzes combatentes da escuridão.

No século IV d.C. nasce em Demre, na actual Turquia, São Nicolau de Mira que, segundo a lenda era amigo dos desprotegidos e em particular das crianças. A ele estão associadas várias lendas como a de ressuscitar crianças ou fazer aparecer ouro e pão e que é o protótipo do santo benfeitor que oferece prendas.

É este santo que finalmente contribui, em meados do século XIX, para Clement Clark Moore fixar a imagem do actual Pai Natal – um senhor de barba branca, simpático, que voa pelos céus conduzindo um trenó puxado por oito renas e que, carregado de presentes para as crianças, aparece na quadra natalícia para recompensar todas as crianças que “se portaram bem” durante o ano.

Não foi por acaso que falei do Pai Natal e que o mencionei como último desenvolvimento das transformações que o Natal foi sofrendo. Em meados dos anos 30, a figura deste ícone sofreu a sua última e extraordinária modificação ao adoptar cores e imagem de acordo com uma conhecida marca de refrigerantes! Ao misturar publicidade, cujo único propósito é a criação de lucro – quer se queira quer não uma espécie de alienação, ou distorção –, e uma cerimónia tão importante, fundadora de sociedades, destrói-se a noção, precisamente, da consciência de si mesmo e da relação com o outro. Em si mesma, esta alteração ou modificação não constitui nenhum problema para as pessoas que comemoram a quadra, tal distorção não é perceptível por elas, porque a mesma prática de distorção ocorre no dia a dia, com a esquizofrenia crescente das nossas sociedades, e as crianças são, inclusive, levadas a pensar que o Pai Natal existe e ele é que oferece e distribui presentes.

À luz da teoria de Marcel Mauss são criadas alianças e laços entre as pessoas que são presenteadas e o Pai Natal. E não entre as pessoas. Daqui se vê como à primeira vista o Natal pode parecer uma época de comunhão entre os homens mas afinal não passa de um pretexto para se “mostrar que se dá”. Esta exteriorização do acto da dádiva explica por que é que a mesma não é completamente banida. Ela é, de facto, sentida como fundadora e importante, mas o seu significado profundo está cada vez mais distante de nós.

Em minha casa (e provavelmente em milhares de outros lares), o “espírito natalício” começa a sentir-se em finais de Outubro inícios de Novembro. Por volta do final de Novembro, as crianças e os avós partilham do mesmo entusiasmo. Foi assim quando eu era criança, é assim como pai e acho que será assim quando for avô. Eles antecipam a chegada do momento da noite de dia 24 quando, depois do jantar tradicional, do bacalhau cozido com todos, a família se reúne e distribui os presentes que foram acumulados à volta da árvore durante os últimos meses.

Neste ano (2007), a árvore de Natal foi montada antes do dia 1 de Dezembro, facto inédito. Estamos em Janeiro e ela ainda lá está, a piscar, à espera do Dia de Reis para ser desmantelada. Este rituais cumprem-se todos os anos, religiosamente, e têm sido diferentes de ano para ano. Lembro-me que nos Natais dos anos setenta ainda se ouvia falar do Menino Jesus, e que as prendas eram para o Menino Jesus.

Do mesmo modo que em relação ao Pai Natal, se pensarmos que as dádivas são fundadoras de alianças vemos rapidamente que era estabelecida, nesse caso, uma aliança com Jesus Cristo e não entre as pessoas. O deslocamento da dádiva para um deus faz com que a acção ganhe o carácter de tributo e que se ligue mais a uma celebração religiosa.

Ao longo dos anos fui assistindo a várias ligeiras modificações nas comemorações. Progressivamente, o carácter religioso desapareceu e deu lugar a uma excitação que tem por base os presentes, mas não o acto de dar. Saber quem deu determinado presente tornou-se insignificante. O que interessa realmente é a noite de reunião da família, a festa e os presentes – a excitação e o excesso. O interesse desta colisão de práticas aparentemente contraditórias reside na luz que ela pode fazer sobre a nossa sociedade e os valores em que ela assenta.

Se, por um lado, como Marcel Mauss defende, as nossas sociedades assentam numa prática que confere à dádiva uma importância fundamental e se o Natal se transformou numa época em que as pessoas dão presentes umas às outras através de um intermediário, a que é que assistimos nesta época tão importante?

Embora a controversa data de 25 de Dezembro para o nascimento Jesus Cristo, estabelecida pela igreja no século IV d.C., não tenha grande justificação científica. Tratou-se apenas de uma tentativa de cristianização de ritos pagãos que se festejavam por altura do solstício de Inverno – o nascimento do deus sol invencível – a Saturnália, festividade romana em honra do deus Saturno que envolvia a troca de presentes. Esta característica, a par com outra tradição cristã (os três Reis Magos, guiados por uma estrela, visitam o deus acabado de nascer e oferecem-lhe presentes: ouro, incenso e mirra) ajudou a fixar o Natal como “o dia” para troca de ofertas.

 

 

Uma Visita de São Nicolau

 

Era véspera de Natal, quando por toda a casa

tudo era imóvel, nada levantava asa;

as meias cuidadosamente penduradas à chaminé,

à espera que São Nicolau lá pusesse o pé;

os miúdos aconchegadinhos nas caminhas

enquanto pelas cabeças dançavam doces prendinhas;

a mamã com o lenço e eu com o meu chapéu,

tinhamos apenas desligado as cabeças para uma hibernação no céu,

quando no jardim se ouviu um chocalhar,

eu pulei da cama para ver o que se estava a passar.

Para a janela voei como um raio,

abri as persianas e disse saio ou não saio

a lua ao colo da neve acabada de cair

fazia os objectos lá em baixo luzir,

quando vi aparecer aos meus olhos apenas,

um trenó em miniatura puxado por oito renas,

com um condutor velho, tão rápido e enérgico,

que eu vi logo que só podia ser São Nico.

Chegaram mais rápidos que águias,

e ele assobiava e gritava e chamava pelo nome aos seus guias;

"Vamos Raio! Vamos, Bailarina! Vamos Saltadora e Raposinha!

Vá Cometa! Vá, Cupido! Vá Trovão! Vá Relampagozinha!

Por cima do alpendre! Por cima do muro

deitem a correr, deitem a correr sem medo do escuro!”

Como folhas secas que voam à frente do Furacão,

quando encontram um obstáculo, para o céu curvam e então,

voaram para o topo das casas os guias,

com o trenó de brinquedos e de São Nicolau carregado todos os dias.

E depois, como um tilintar no sótão ouvi

o casco de cada uma das renas a bater por ali.

Quando enfiei a cabeça e olhei para o alto,

pela chaminé abaixo chegou São Nicolau com um salto.

Dos pés à cabeça de pele vestido

de cinzas e fuligem estava ele revestido;

uma trouxa de brinquedos às costas trazia,

parecia um caixeiro-viajante quando a sua carga abria

os olhos – como brilhavam! As covinhas na cara – que riso feliz

as bochechas era rosas, uma cereja o nariz

a boca desenhada para cima num riso leve

e a barba do queixo branca como a neve;

segurava com os dentes a boquilha de um cachimbo

e o fumo envolvia a cabeça como uma coroa de flores num limbo

tinha rosto largo e barriga pouco fina

que abanava quando se ria, uma tigela de gelatina

ele era um belo duendezinho redondinho e gorducho,

eu ri-me quando o vi, apesar de tudo;

um piscar de olho e um menear de cabeça,

disse-me logo que não era nenhuma ameaça

nada disse, direito ao trabalho foi

encheu todas as meias; e virou-se bruscamente depois,

e pousando ao lado do nariz o dedo

e acenando, pela chaminé subiu sem medo;

chegou ao trenó assobiou à equipa

para longe como a flor do cardo eles voaram

ouvi-o exclamar enquanto se afastava,

“Feliz Natal e para todos boa noite”.

 

Tradução livre do original de Clement C. Moore.

 

Com o pretexto do lucro e através da publicidade, os cidadãos são aliciados a serem consumidores insaciáveis e a conduzir os seus negócios e garantir os seus postos de trabalho através de práticas agressivas. Porém, quando chegam a casa, à família, ao lar, é esperado que essas mesmas pessoas se comportem de modo completamente diferente. Isto contribui largamente para o tal desconhecimento de si mesmo e da relação com os outros que Marcel Mauss considera fundador de sociedades. A família reunida é a mais próxima, embora, ocasionalmente, possam estar presentes relações mais distantes.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 13:10
link

Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
"ALICE NAS CIDADES" DE WIM WENDERS

IMAGENS-MOVIMENTO

 

"Encontrei com Alice nas Cidades a minha própria caligrafia no cinema. Muito mais tarde, tornou-se-me claro que, nestes anos que passaram, o meu trabalho oscilara entre dois pólos: os filmes a preto e branco sobre temas pessoais e os filmes a cores, adaptações de obras literárias."

Wim Wenders

 

Com Alice nas Cidades (1974), Wim Wenders inicia a sua trilogia de road movies (género que chegou a dar nome a uma sua produtora). Filmes passados em viagem, recuperando um ramo da literatura dos anos '60, a beat generation de On the Road de Jack Kerouac e um ramo do próprio cinema onde Easy Rider de Dennis Hopper e o magistral Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni figuram como maiores referências. No livro de Kerouac, o México funciona como local físico final mas também como espaço mental para a liberdade. A deslocação, a viagem para esse local ganha contornos iniciáticos, de transformação.

No filme de Wim Wenders, o realizador servir-se-á de um actor e uma actriz que mostrarão, também no ecrã, o nascimento de uma relação e uma razão de vida, o nascimento de uma história e ao mesmo tempo um modo de fazer filmes. Rüdiger Vogler e Yella Rottländer são os protagonistas, o filme pode ser um documentário da relação de dois actores: Rüdiger e Yella, diz Wenders, apaixonaram-se verdadeiramente.

Neste filme, Wim Wenders inicia uma viagem, reveladoramente, nos E.U.A. (a que retornará com o belo Paris-Texas) e acaba-a na Europa Central – na Holanda e Alemanha –, partilhando-a com Philip Winter, a personagem que sofrerá a transformação.

O longo travelling do início do filme leva-nos da imagem do céu pontuado por um avião, para a praia. Ouvimos a guitarra arpejada dos Can, o horizonte forma uma linha que é rapidamente contrastada no corte do plano seguinte com o travelling vertical que nos apresenta Philip Winter debaixo de um pontão de madeira, o mesmo boardwalk sobre o qual ele cantará, depois de tirar mais uma fotografia à sua dura realidade com a Polaroid:

 

Under the boardwalk

Down by the sea 

On a blanket with my baby

That's where I want to be

 

É a letra de Under the boardwalk dos Drifters, grupo de doo-wop dos anos 50. Philip Winter está realmente debaixo de um pontão, junto ao mar, mas não está enrolado num cobertor com a sua querida – antes, numa solidão contrastante e aguda –, as fotos que ele tira do horizonte não dizem, tal como a canção, aquilo que ele vê. E Wim Wenders está, como Philip Winter, entregue apenas às imagens e ao que consegue captar delas, numa longa planície monologante que dura cerca de 17m, até ao momento em que encontra Alice no aeroporto. Curiosa a música de doo-wop que Philip canta, com o seu ritmo latino e refrão inane que contrasta com o melancólico dedilhado da guitarra.

Winter volta para o carro. Aproxima-se de um cruzamento e vemos no carro duas sombras reflectidas que nos lembram a equipa de filmagem. A dimensão documental adensa-se através da referência explícita ao cinema. Philip Winter tira mais uma foto aproveitando o sinal vermelho. Realizador e personagem encontram-se no mesmo estado ontológico, entregues às suas realidades, mas destacados delas, Winter ironizando-a com canções, Wenders deixando-se conduzir pelo deambular da personagem. Ambos à procura de uma razão. Um para viver, outro para filmar.

Em entrevistas, Wenders diz que escreve guiões apenas para garantir o financiamento dos filmes. Aquilo que ele realmente filma é escrito no dia anterior. É essa a impressão que temos realmente: Wenders conduz o filme como se fosse o seu diário de bordo, um bloco de notas. Os fundidos em preto sucedem-se sem que nada de significativo aconteça, como páginas em branco. Passagens de tempo indefinidas. Até que numa estação de serviço que podia ser de um quadro de Hopper, caso o preto-e-branco não se tivesse imposto no filme, um miúdo negro, encostado à bicicleta, pergunta “Por que é que está a tirar fotografias? O patrão não vai gostar.” Winter responde depois de ter contemplado a fotografia: “Por nada.” No carro confessará o seu desalento: as fotografias “nunca mostram aquilo que vimos.” E de novo: "To shoot pictures: Deitando abaixo tudo aquilo que não suportamos."

Quando Winter se queixa de que as fotos não conseguem comprometer o real ele celebra justamente o cinema. Perante a incapacidade da fotografia o cinema irrompe. É uma declaração do realizador que se tornará clara mais tarde quando Winter, também ele revoltado com a manipulação de imagens e palavras, destruir uma televisão no quarto do motel Skyway. Wenders e Winter vão alternando na construção da densidade dramática: "Falar com os botões é mais ouvir do que falar" diz a personagem. É como se ela se fosse reinventando, construindo ao mesmo tempo o nosso universo metafórico: o das imagens.

 

O cinema parece deveras o último descendente desta linhagem estabelecida por Bergson: Poderia conceber-se uma série de meios de translação (comboio, automóvel, avião...) e paralelamente uma série de meios de expressão (gráfico, fotografia, cinema): a câmara apareceria então como um comutador, ou antes, como um equivalente generalizado dos movimentos de translação.

Gilles Deleuze

 

E é assim que ela aparece nos filmes de Wenders. Esta conotação permite ao realizador organizar minuciosamente o filme: os fundidos que remetem para as passagens de tempo, as horizontalidades dos travellings inevitáveis no carro, o uso da música e do som para estabelecer universos e reacções: o rádio, a televisão no motel (o berimbau que toca um can-can), a música dos Can que continua no seu arpejar melancólico, o órgão do estádio que Winter visita. Todos estes elementos vão sendo delicadamente justapostos uns aos outros, dando-nos a conhecer Philip Winter na sua solidão à deriva, mas também o olhar com que Wenders atravessa os E.U.A. É um olhar transitório, de passagem, documental, como o comprova a sucessão de meios de transporte: carro (táxi incluído; a portagem com que entramos em Nova Iorque), comboio, avião, barco, funicular. Até as escadas rolantes servem para confirmar a horizontalidade dos travellings do filme.

Philip Winter é enviado por uma revista alemã ao novo continente para escrever uma história sobre os Estados Unidos. Mas ao encontro na redacção em Nova Iorque ele aparece apenas com as suas fotos polaroid. Winter justifica-se: as histórias são sempre sobre coisas que se vê – imagens e signos. O editor quer uma história por palavras. Philip diz que a terminará na Alemanha e sai.

Também Wenders anda à procura de uma história. Numa entrevista a Wolfram Schütte, o realizador diz: "A necessidade de contar histórias é também, contudo, desde Homero, a de ouvir, com as quais se podem produzir contextos. Há uma necessidade de contextos, porque, no fundo, as pessoas têm pouca experiência do contextual. (...) Penso que a necessidade de histórias se tornará maior, porque há nelas quem conta e que faz entrar a ideia de que ainda intervimos na nossa própria vida. Isto é o que fazem as histórias: confirmam como somos competentes, que determinamos a nossa vida." E é essa história que vem ao encontro de Philip no aeroporto.

O uso da porta giratória para o encontro das duas personagens é bastante feliz, dois destinos que vão passar a ser um. A impossibilidade de embarque liga os destinos da família de Alice e de Winter. A mãe da menina foge de um desgosto de amor. Alice será o motor da história de Winter a partir de agora. Antes de voltar para junto da família, ele tenta passar a noite junto de uma amiga alemã, com quem partilha a sua angústia: “Há muito tempo que já o fizeste [deixar de sentir o mundo]. Não precisas de atravessar a América para o fazeres. Deixas de sentir quando deixas de ter um sentido de identidade. E isso já aconteceu há algum tempo. Por isso é que precisas sempre de provas, provas de que ainda existes. (...) Como se só tu vivesses essas histórias. E é por isso que tiras fotos. Como prova de que foste realmente tu quem viu essas coisas. (Insert de alguns livros espalhados, entre eles Tender is the Night de F. Scott Fitzgerald.) Foi por isso que vieste cá. Para que alguém ouvisse as histórias que contas a ti próprio. A longo prazo isso não chega, meu querido... Ele acaba por não ficar, acentuando o spleen da personagem. Regressa ao hotel e passa a noite com a mãe de Alice, ela diz-lhe: “Não quero dormir contigo mas gostava de partilhar a cama contigo.”

Quando acorda, Winter escreve no bloco de notas, olha a televisão. Ao fundo, em profundidade, Alice dorme. Estará a escrever sobre ela? Será o início da sua história? Não. É apenas uma série de desabafos sobre a televisão americana e a maneira como confirmam o status quo, mais uma crítica aberta aos Estados Unidos da América. Winter ainda anda em círculos. Alice ainda não começou a transformá-lo. No outro dia, a mãe de Alice sai de casa sozinha. Deixa uma nota para um encontro mais tarde, ao qual falta. A partir daí, Alice será também ela um ser perdido como Winter. O encontro casual é início de uma aventura e a história é um encontro de almas.

Apanham um avião para Amsterdão onde têm mais um encontro combinado com a mãe de Alice. A transformação de Philip Winter começa a ser visível no aeroporto. A sua repulsa em relação à televisão é posta em causa justamente por Alice. Enquanto esperam pelo avião, a menina, com as suas próprias moedas, decide gastar dinheiro a ver televisão. Winter olha para ela simplesmente. A menina pede-lhe comida (que parece ser a sua única verdadeira preocupação). Winter sai sem dizer nada. A televisão é o símbolo de uma nova maneira de ver as coisas. Talvez a televisão seja mais um elo na cadeia de que Bergson falava.

A ligação entre os dois vai crescendo, a partilha da escova de dentes é sintomática no quarto de hotel. É Alice que o vai tirando do seu angst existencial. É a história de Alice que Winter vai construindo. Ao mesmo tempo que constrói uma saída para a sua depressão. Quando a mãe de Alice falta ao encontro de Amsterdão, a crise estala. Alice desespera. É Winter quem a salva. Sugerindo-lhe ir à procura da sua avó. A menina não sabe onde ela vive. Winter sugere-lhe dezenas de cidades. Alice é quase obrigada a escolher um destino com Winter. Veremos mais tarde que Wuppertal não foi uma escolha propositada, mas sim um modo de viajar. Ao pequeno-almoço, Alice descobre umas chaves na mochila de Winter: são do motel Skyway. Quando vemos o insert do grande plano das chaves e o ouvimos dizer o nome percebemos como ele já está longe do sentimento dos E. U. A. Este processo iniciou-se na viagem de regresso à Europa. No avião, quando Winter joga ao jogo da forca com Alice. A palavra que ela tem de adivinhar é “Sonho”. Ela protesta: “Não vale! Tem de ser coisas que existem!” Quando chegam a Amesterdão, a menina conta o sonho que teve a Winter. Mais tarde, à noite, Winter terá de lhe contar uma história. Estas duas sequências são paralelas entre si. Elas permitem a Wenders, estabelecer os tais contextos de que ele fala na citação já usada. A viagem como sonho, processo de (re)construção.

Alice, perante a insistência de Winter em partir de Amesterdão, escolhe Wuppertal ao acaso, e confessa-o num café, na Alemanha, ao som de um blues de Chuck Berry tocado por uma jukebox. O lado ameaçador, repetitivo do blues sublinham o conflito eminente mas também projecta a história para a frente. Winter decide entregá-la à polícia. A história suspende-se. Interrompe-se. Ao sair da esquadra, Winter vê o cartaz de um concerto de Chuck Berry e decide ir ao concerto. Vê-mo-lo a beber Coca-Cola, Winter confessa a sua admiração pelos E. U. A.

Quando regressa, Alice espera-o à porta do seu hotel. É difícil quebrar a ligação estabelecida. Winter fica contente de a ver. Nova paragem, o distrito de Ruhr. Com um novo fracasso. Mas nada abala já o espírito deles: fazem jogging, tiram fotografias juntos, Alice até ajuda Winter a conquistar uma estranha, a viagem podia durar para sempre. Alice continua a reclamar o seu papel do outro lado da vida de Philip Winter.

A viagem prossegue, mas a polícia continua à procura de Alice. Numa viagem de barco, Winter é abordado por um polícia. A avó entretanto apareceu, a mãe também. Ele tem ordens para embarcar Alice no primeiro comboio para Munique. Winter entrega o carro mas fica sem dinheiro. É Alice que lhe oferece 100 dólares para o bilhete dele. Quando ela lhe pergunta, já no comboio: “O que vais fazer a Munique?” Ele responde “Acabar esta história.”

Num plano aéreo dos dois à janela do comboio, subimos cada vez mais alto até o enquadramento abranger todo o comboio, o rio e as montanhas, estamos de volta ao avião do primeiro plano do filme, só que desta vez a perspectiva é inversa. A história ganhou asas e voou. Com ela assistimos à transformação da dúvida, da angústia, da depressão e do medo (o “medo de ter medo” como Winter diz a Alice na bela cena da casa de banho) em acção, esperança, movimento. Este movimento é também parecido com a novidade que o cinema representa em relação à fotografia polaroid.

Mais uma vez, protagonista e realizador sofrem transformações similares. Com o filme Wenders ganhou definitivamente estatuto no cinema alemão, mas a diferença de que este filme é marco é procurada pelo realizador na sua nova abordagem, na confiança que deposita no valor metafórico da viagem, na relação que ela estabelece com a imagem de cinema. Ele usa a enumeração exaustiva de cidades alemãs para marcar um ponto na história do seu cinema. Um cinema influenciado fortemente pela iconografia norte-americana mas que confia no uso ponderado e significativo do enquadramento, onde o travelling predomina contrariando o plano fixo, afastando-se deliberadamente da fotografia demasiado débil para abarcar a poesia das imagens em movimento.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 21:38
link

Sábado, 2 de Janeiro de 2010
AFORISMOS #60

 

 

 

Quando odeias uma pessoa, odeias qualquer coisa nela que é parte de ti próprio. Aquilo que não faz parte de nós não nos incomoda.

 

Herman Hesse


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 12:59
link

Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
RECIBO VERDE

 

Autocolante de azulejo de chão pintado e colado. Inverno 2009.

 


: Panda; Dog; Mike Keneally Band

Postado por Pedro Marques às 17:51
link

A DAMA DE COPOS ou ESTA NOITE IMPROVISA-SE


 

Autocolante de azulejo de chão pintado e colado. Inverno de 2009.


: The Boing-Ah Steroid; Nonkertompf; Mike Keneally
etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 17:26
link

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
HISTÓRIAS (CAMPANHA ORQUESTRADA)

Esta é uma das músicas mais divertidas do rock português. É do disco Se Cá Nevasse, dos Salada de Frutas. Corria o ano de 1981, e lembro-me que até se fez uma reportagem na RTP com o facto do disco ter sido gravado na Holanda, no mesmo estúdio em que os Police tinham gravado Zenyatta Mondatta um ano antes. A canção mais conhecida é a que dá nome ao disco, mas era esta aquela que mais gozo me dava ouvir. A letra é divertida e a maneira como está narrada, com as várias vozes aproxima-se muito daquilo que eu adoro ouvir na música: histórias. Na letra ainda existem alguns (...) que são palavras que não consigo decifrar, se alguém souber, por favor, não hesite em mandar-me a letra exacta. Este registo foi tirado directamente do disco.

 

 

Esta é a verdadeira história de Rebalbino Pires.

 

O honestíssimo vadio ancorado nas Portas de Santo Antão, mas batendo a outras portas e respeitador de todos os santos.

Navegando de mulher para mulher. Das filhas mais do qu'as mães.

E classificado pela justiça e pela opinião pública.

Como já tinha acontecido ao próprio nosso meio.

Foi Rebalbino atleta que ganhou a maratona, com duas horas de avanço, tendo cortado a meta repimpado na Ramona. E acusado de gamanço.

Mentira. Pura mentira.

Se gamou os sapatos aos outros atletas foi para salvar o turismo de pé descalço, pá. Tudo o mais é boca, é bera, é falso. Nunca apareceu às faces da terra. É que nem à face “A” nem à Face “B”.

Gajo tão sério e pachola (...) ele era o chefe de fila, para muito puto reguila mestre melhor não havia, condutor de escola, de sobrinhos, ensinou-lhes os caminhos, que vão às casas das tias.

Mentira, outra mentira.

O quê, Rebalbino Pires cavalheiro impec e aprumado desmoralizou a moral aos costumes a que se tinha acostumado. Quando andou no contrabando tinha um bando contratado. Contra fé e contra guarda contra cima e contrabaixo. Contra-regra e contramão até que vem uma farda que o enfarda na prisão.

Mentira, bruta injustiça.

Tudo contrabando. Nada a favor de bando. Sempre foi um sereno de um cidadão, cumpridor de leis e de mandamentos que mandassem inclusivé de portarias municipais e de outras portarias que tais. Impostos em dia, facultativos, à noite, eh...! ah...!

Mas numa noite de porrada na tasca do Manelado é que perdeu a cabeça ao mandar a cabeçada num artolas encartado que foi parar a travessa. Levou só quatro pontos porque era a Travessa do Cosido.

Mas é tudo mentira, pura invenção.

Vejam só o certificado do seu registo criminal, passado por ele sem ajudas de ninguém. Impecável! Bestiali!

Lá vem: o seu único crime foi falsificar o registo criminali.

Mas olha aí. Mais que permita a força humana... tinha oitenta e uma amantes, umas vinte por semana, sem vozes reclamantes. Tinha oitenta e uma amantes, uma delas ciumenta. Foi essa uma das oitenta que soprou o pêlo da venta. Sacou a faca da liga.

E ele nem deu aos calcantes. nunca foi homem de brigas.

Mentira, outra mentira. Rebalbino Pires, honrado português de lei, não anda à mão desarmante, nunca fugiu à polícia, nem sequer foge da chuva. Nem para lavar a reputação, que exige reparação.

Depois de tanta patranha.

Tanta mentira malvada.

Agora é que são elas.

E aqui está esta campanha devidamente orquestrada.

É assim mesmo!

E agora rapazes, para a frente.

Para a frente, o quê?

Para a frente com o resto, pá, em honra do gajo, pá.

OOOOOH IN MY NIGHT IN SOLIDÃO.

WELCOME TO MY NIGHT IN SOLIDÃO.

Rebalbino, senhores ouvintes estivemos a ouvir a história de Rebalbino Pires, um exclusivo das frutas WELCOME.


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 16:17
link

MUNDO SUBMERSO - GUILHERME COSSOUL NAS AMOREIRAS

Em Janeiro de 2010.

 

Um mundo submerso que se deixa ver por entre duas frestas, um universo de homens e mulheres belos e feios à vez, todos iguais, mas que se distinguem uns dos outros pela cor da pele, religião, cultura, proveniência, orientação sexual ou ideológica. É esta a casa do nosso pensamento. O texto que trabalhamos é de Gary Owen, escritor galês, premiado várias vezes, no original é Drowned World, nós chamamos-lhe Mundo Submerso.

São quatro os actores/personagens que nos contam a história de amor e perseguição, num mundo dividido que procuram normalizar, que procuram tornar mais humano. No fim, dois mortos no fundo do mar e dois vivos a fugir da inundação. A água ameaça o mundo, a água, fonte de vida, semeia a morte numa sociedade que não sabe viver com os seus habitantes. Uma sociedade que se contorce em agonia, à procura de resquícios de beleza para os extinguir. Eventualmente, a beleza contamina com a sua radiação inexplicável e quem persegue torna-se perseguido. E é assim que viramos a história para nos olharmos ao espelho. Para usarmos aquele obejcto que já ninguém usa neste mundo: o espelho. Porque nos lembra de nós próprios e de como somos desastrados e feios e falsos. Todos nós.

A construção da nossa imaginação passa por estas três salas, ali, às Amoreiras, numa antiga Escola primária. Os quadros de ardósia ainda lá estão com uns restos de paus de giz que usamos para escrever palavras de ordem ou para fazer declarações de amor cifradas. Numa das salas jaz a maqueta que fizemos do nosso cenário mental que será a única coisa que não restará deste novo espaço da Guilherme Cossoul. Quando começarem as obras para construção do auditório, o sítio onde agora ensaiamos desaparecerá. Não foi por isso que fizemos a maqueta, mas que calhou bem, lá isso calhou.

São tempos de felicidade pela dedicação que todos estamos a pôr nesta causa. Depois das tristezas, das depressões, das desilusões, parvoíces, traições e imaturidades, encontrei finalmente uma casa, colectiva, onde, com os outros, e sem ordenados, posso imaginar mundos diferentes. Este é submerso, o próximo não sei como será. 2010 aproxima-se a passos largos.

 

Bom Natal.


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 15:28
link

AFORISMOS #59

 

 

 

 

 

 

 

O trabalho é muito mais divertido que a diversão.

 

Noel Coward


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 15:25
link

A REVOLUÇÃO DE 1910 EM PORTUGAL #3

No início do século XX agudizou-se particularmente a situação política interna de Portugal. Com a aprovação da lei sobre as congregações religiosas no Outono de 1901 tiveram lugar manifestações no país. A lei permitia a permanência no país de todas as congregações religiosas, salvo os jesuítas, mas estes invadiam o país novamente dando outros nomes à sua organização. Perante isto, em todas as grandes cidades portuguesas realizaram-se manifestações de protesto nas quais participaram mais de 100 mil pessoas. Isto por pouco não levou ao rompimento de relações com o Vaticano. A opinião pública portuguesa acompanhou com grande atenção as negociações que decorreram no Inverno de 1902 entre o governo português e gabinetes estrangeiros sobre a questão da conversão da dívida externa portuguesa. O Século, jornal republicano, passou a publicar com frequência artigos em que se exigia o fim da política antipopular do governo e que se anulassem os acordos firmados com credores estrangeiros. A opinião pública portuguesa considerava os acordos sobre a conversão como mais uma tentativa no sentido de  legalizar  a  intervenção  estrangeira  nos  negócios  internos  do país.

Causou grande preocupação nos círculos ligados à Corte, a petição dirigida ao rei, a 10 de Maio de 1902, por representantes do exército e da marinha que continha uma acerba crítica a todo o sistema político então vigente.

Tornaram-se mais frequentes no país as manifestações revolucionárias no exército e na marinha. Assim, por exemplo, em Abril de 1906, a bordo do cruzador Dom Carlos houve uma revolta de marinheiros que teve o apoio da tripulação do cruzador Vasco da Gama. A revolta foi cruelmente sufocada. Este acontecimento veio mostrar que o descontentamento existente se propagara mesmo a um dos pilares de regime, as forças armadas.

Ao mesmo tempo a onda de agitações abrangia o mais antigo centro escolar do país, a Universidade de Coimbra, as Escolas Médicas e Politécnicas de Lisboa e do Porto e outras escolas superiores. Tropas foram lançadas contra os estudantes e as escolas fechadas por decisão do governo.

Os operários das indústrias portuguesas, sobre os quais recaía o maior peso da política antinacional e antipopular do governo, desencadearam a luta pelas suas reivindicações económicas e políticas. Intensificou-se no país o movimento grevista, no decurso do qual houve choques entre os trabalhadores  e  a polícia.

Neste período, o Partido Socialista, devido à sua debilidade ideológica, não conseguiu encabeçar as manifestações operárias e, gradualmente, foi perdendo a sua influência. É de notar que, no começo do século XX, o movimento socialista em Portugal passava por sérias dificuldades. Um maior enfraquecimento das posições de todo o movimento operário português foi causado pela cisão do Partido Socialista, em 1892, quando se formaram duas alas, a anarquista e a socialista, e por nova cisão em 1900, quando a ala esquerda do Partido Socialista se dividiu em partidários da aproximação com os republicanos e em opositores. Os republicanos imediatamente se aproveitaram disso, desencadeando um movimento de propaganda que tinha por objectivo atrair os trabalhadores com a promessa de considerável melhoria da sua situação material, caso se instaurasse o regime republicano.
Nas vésperas da queda da monarquia incrementou-se no país a actividade dos carbonários, organização secreta fundada em 1898. Criada à imagem da organização dos carbonários italianos, tinha por objectivo o derrubamento do regime monárquico pela força e a liquidação do clericalismo em Portugal. A sua agitação política fazia-se por toda a parte: nas fábricas, na construção civil, nas ruas, na imprensa. Os carbonários chamavam a população a agir com decisão e coragem. No anos de agravamento da luta revolucionária a organização dos carbonários, que reunia representantes das mais diversas profissões e camadas sociais (médicos, advogados, funcionários públicos, operários), aumentou grandemente,  chegando  a atingir 40 mil membros.

A Revolução Russa dos anos 1905-1907 exerceu influência sobre o desenvolvimento do movimento revolucionário em Portugal. O embaixador russo em Lisboa, Koiander, comunicava ao seu governo que «todas as notícias sobre o que acontece na Rússia, divulgadas em Portugal pelos revolucionários russos que se acham no exterior, são imediatamente transmitidas pelo telégrafo e publicadas pelos jornais portugueses com grande destaque». Neste sentido ele chamava a atenção do governo português para a campanha orientada contra o absolutismo tsarista, que se fazia sistematicamente em Portugal. Os jornais republicanos publicavam artigos em que se condenavam as perseguições organizadas pelo governo tsarista contra os revolucionários russos e em particular contra Máximo Gorki. Reuniões e comícios realizados no Porto, em Coimbra e Lisboa expressavam o protesto contra as repressões levadas a cabo pelo tsarismo. Uma reunião de estudantes de Coimbra exigiu a imediata libertação de Gorki, preso por ordem do governo tsarista. Toda a intelectualidade do país se associou à campanha em defesa de Gorki. Assim, por exemplo, a 2 de Fevereiro de 1905, jornalistas e escritores do Porto enviaram ao rei um telegrama em que se exigia fosse «preservada a vida deste arauto dos deserdados».
Em telegrama endereçado ao Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Koiander reconhecia que «os eventos revolucionários da Rússia constituem uma das causas da intensificação da campanha antimonárquica em Portugal».

As manifestações revolucionárias, cada vez mais frequentes no país, constituíram uma ameaça à existência da monarquia em Portugal. Nestas condições a crise chegou às altas esferas. Parte dos círculos governantes tencionava substituir por uma certa renovação de fachada do velho regime as soluções básicas dos problemas sociais, políticos e económicos já amadurecidos. Tais reformas, organizadas de cima, conforme imaginavam os seus promotores, deveriam evitar a mudança radical das relações sociais, políticas e económicas existentes então no país. (Continua.)

 

 

Nikolai Efimov. Site do PCP.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 14:59
link

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
POST EM BRANCO

Este post devia ficar em branco. Mas não me apetece. Quero apenas que o título seja em branco para que ninguém saiba do que vou falar. Já que, hoje, especialmente hoje, me sinto especialmente sensível. Não sei porque será, não sei se será porque a data me faz lembrar qualquer coisa boa ou má. Não sei o que sinto, será da minha pele?

A minha pele está cada dia mais odorosa. Diz a Pfeiffer no último filme do Frears, que os perfumes permanecem mais tempo na pele quando envelhecemos. Deve ser por isso. Deve ser a camada de cheiros estranhos e esquisitos que fui adquirindo ao longo da vida que começa a revelar-se. Muitos desses cheiros não são bons, não pensem. Não escrevo aqui para me vangloriar deles, mas acho que só hoje percebi como esses cheiros podem determinar o futuro de uma pessoa. E de como esses cheiros são determinantes na nossa vida. Dizem que os cheiros despoletam as mais antigas das memórias. Será por isso que cada vez confio mais neles? Será por isso que às vezes me vejo como um insuportável fedorento?

Este fedor talvez me faça lembrar então a razão porque escrevo este post. É que esta data me faz lembrar como fede a memória que tenho deste dia. É uma memória fedorenta, mas muito cara. Gosto tanto dela como daqueles peidinhos que damos debaixo dos lençóis e depois cheiramos carinhosamente. Aqueles peidinhos que nos reconfortam, mas que não passam de memórias mal cheirosas das nossas entranhas. Merdas por resolver.


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 01:25
link

"GOSTO DE PASTINAGAS"

A chirivia, chirívia, cherovia, cherivia, cherívia ou pastinaga (Pastinaca sativa) é uma raiz que se usa como hortaliça, relacionada com a cenoura, mas mais pálida, e de sabor mais intenso.

O cultivo remonta a tempos antigos na Eurásia: antes do uso da batata, a pastinaga ocupava o seu lugar.

Em Portugal é cultivada na região da Serra da Estrela.

A pastinaga tem mais vitaminas e sais minerais que a cenoura.


etiquetas: ,

Postado por Pedro Marques às 00:00
link

Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
KSENIYA SIMONOVA



Obrigado à Helena Salazar por me ter mostrado este vídeo... das coisas mais belas que já vi. Que simplicidade e beleza! Se gostarem vejam ainda este e este.


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 17:30
link

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
CHÉRI - UMA MÃE A MAIS

Chéri conta a história de um amor improvável nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. A história de um triângulo amoroso onde o terceiro vértice é ocupado por uma mãe prostituta, na época de ascensão meteórica de uma aristocracia que aprendia a viver com as novidades de então: a electricidade, o automóvel, o cinema, o avião, as acções na banca. Era um tempo de burburinho, de excessos, de barreiras que se quebravam, fossem elas de nível intelectual ou social. Não eram só os avanços ao nível da tecnologia, mas também a nível artístico e social. É nesta época que nascem movimentos, são escritos dezenas de manifestos artísticos, o socialismo está quase a ser posto em prática (a Revolução falhada de 1905 na Rússia), tudo está a ser posto em causa.

O filme está carregado dessa visão excessiva, nas cores dos figurinos (excepção para Chéri e Edme – os órfãos), nos cenários – a casa de Lea com os ostensivos motivos da Belle Époque, a varanda da casa de Madame Peloux, excessiva na vegetação, tal como o jardim onde as duas falam sobre o casamento –, e na sugestão da história de uma relação libertina que esconde um possível incesto. Os tempos eram propícios à prostituição. Era a época de ouro. E é à volta de duas prostitutas da cidade-luz que a história vai rodar. Uma dessas cortesãs, a mais bonita de todas, respeitada e invejada: Lea de Lonval, que agora, após vários anos de actividade, pensa em retirar-se. A outra: Madame Peloux, retirada numa vida de puro ócio, a viver dos rendimentos e a programar o futuro do filho.

O filme abre com a caracterização dessa sociedade, mostrando-nos fotografias de época, em sucessão, nomeando prostitutas e estabelecendo uma relação de distanciamento através da narração do realizador. Este distanciamento será útil mais tarde quando virmos as personagens na sua enorme solidão e ainda no final quando se concluir que Chéri, por não conseguir viver com a ideia de que nunca mais sentirá um tão grande amor, deu um tiro na cabeça. Mas para já, as últimas palavras lançam a intriga da introdução: “Lea de Lonval não se pode apaixonar.”

Do outro lado está Fred Peloux, conhecido por Chéri. Frequenta o feérico Maxime apesar do feitio taciturno e introvertido. Alternadamente a narração convoca a movimentação da câmara. Ora observando a placidez e calma do quarto de Lea, ora rodopiando na frenética actividade do Maxime.

A juventude de Chéri atrai Lea, tal como a profundidade de sentimentos desta seduz a misantropia do jovem. O encontro é não só inevitável como provocado pela mãe. Madame Peloux fecha a partir desse momento o triângulo da relação amorosa. No princípio, funciona como catalizador, ela, que sempre foi ausente, agora quer que o filho aprenda uma ou duas coisas com esta rival que ela teme mas que também admira. Para Chéri e Lea o casual encontro rapidamente se torna um caso com contornos mais sérios do que se poderia esperar, os dois acabam por manter a relação durante seis anos. É tanto mais estranho quanto Chéri é talvez o oposto daquilo que Lea sempre teve toda a vida. Habituada que estava às confissões de todos os homens. Ele é silencioso, guarda em si todo o mistério da sua despudorada juventude. Quando ela lhe pede para contar alguma coisa sobre si próprio, ele responde que não há nada para dizer. Ela chega a confessar que não consegue criticar o seu carácter porque ele não parece possuir um.

A intimidade que partilham é sublinhada pelo facto de os dois se terem “baptizado”: Chéri pôs a alcunha Nounoune a Lea, e esta nomeou Fred com o nome Chéri. Este pormenor pode parecer banal, mas é ele que vai caracterizar toda a relação dos dois. Ao vincar a relação, Hampton e Frears começam a dar contornos incestuosos à relação. Chéri possui a mãe através de Lea e sem o saber. É isso que o filme explora ao colocar Madame Peloux no outro vértice da relação.

A organização estrutural do filme confirma este jogo íntimo e perigoso. Não só as imagens recorrentes que Lea imagina ver (Chéri a fumar ao portão) e que são inserts que visam potenciar o desconcerto psicológico da personagem, mas também as narrativas cruzadas, como a sequência do casamento de Chéri e Edme entrecortada por Lea em casa a chorar, ou a viagem de comboio do casal cruzada com a cena de Lea em casa com a criada admirando a nova esmeralda, que surgem como contrapontos emocionais. Nestes momentos, toda a vacuidade da vida quotidiana é contraposta à profundidade dos sentimentos.

São inúmeros os pormenores que ao longo do filme vão confirmando este triângulo amoroso edipiano. A conversa que os dois têm na primeira noite que estão juntos começa por ser precisamente sobre a mãe, Lea confessa que talvez nunca tenha gostado dela. Chéri concorda que ninguém gosta por causa do seu feitio. Outro pormenor que fortalece esta perspectiva é o facto de Edme, a rapariga de 18 anos que casará depois com Chéri, ser também ela filha de uma cortesã. Para além de ser Madame Peloux a forçar o casamento com o filho, por razões monetárias (embora confesse a Lea que é porque quer ter netos), numa cena mais tarde, Edme e Chéri confessam um ao outro que no fundo são dois órfãos, não só de pai, que nunca conheceram, mas também de mães sempre ausentes – talvez seja por isso que o casamento não resultará.

Mas talvez a cena mais esclarecedora seja a cena de duplicação da relação. Enquanto Chéri está em lua de mel Lea vai a casa de Madame Peloux e é confrontada com um par que reproduz a sua relação. A casa da cortesã chega Lili e Guido. Por entre conversas fúteis de prostitutas murchas, como a antiga cantora de ópera e uma espécie de travesti que joga com ela às cartas, Lili está vestida como um palhaço e obriga o seu imberbe “namorado” a enterrar a cara entre as suas mamas. A cena é grotesca. A obscenidade da relação é tão gritante que tal imagem não deixa de a perseguir e surgirá mais tarde como insert dos seus pensamentos.

Na cena final, quando Chéri volta e passa a última noite com Lea, na manhã seguinte, percebemos porque as coisas não podem voltar a ser o que eram: ela porta-se como uma mãe: reserva bilhetes para fugirem, aconselha-o a tomar os seus comprimidos de ruibarbo, repreende-o por ele arrancar a pele das unhas dos pés. Ela diz-lhe que o silêncio dele faz lembrar o de uma criança de 12 anos. Ele responde que será sempre assim e se se comporta dessa maneira a culpa é dela(!). Quando Lea, num acesso de ciúmes, começa a dizer mal da pobre Edme e da sua mãe, ele manda-a calar porque quando ela fala assim lhe faz lembrar a mãe.

A imagem que Chéri tem de Lea é uma imagem idílica assombrada pela recordação da mãe.

Chéri é a história de um amor improvável? Que pergunta é aquela que Lea/Michelle Pfeiffer/Stephen Frears fazem no plano final quando o rosto sério da personagem olha directamente a câmara enquanto a voz off nos conta do fim de Chéri? É a história de um amor condenado? Ou é a história de um amor que não se pôde repetir? Talvez a resposta esteja no olhar penetrante do plano final.

 

Chéri de Stephen Frears. Argumento de Christopher Hampton baseado no livro Chéri de Colette. Com Michelle Pfeiffer, Rupert Friend, Kathy Bates e Felicity Jones.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 23:27
link

Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
FUNDAMENTALISMOS

O caso Freeport acaba de ser arquivado em Inglaterra. Em Portugal, a porcaria continua. Ainda que tenha sido a Inglaterra a despoletar todo este absurdo, em Portugal o que se visava era apenas denegrir o primeiro-ministro.

É mais um caso, apenas. Um caso de tentativa de assassinato político, baixo, rasteiro, impróprio de um estado que se quer civilizado. Trata-se de uma tentativa política, com objectivos bastante claros. Tal como todos os outros. Tentar tornar a governação do governo minoritário do PS insuportável. Carregando no pedal da educação e da sua luta, fazendo dos tribunais os seus cavalos de tróia. Inventando casos. Casos que seriam com toda a certeza outros casos se estivesse o PSD no governo.

Tal como muita gente neste país, estou farto das notícias que rebolam no "diz que disse" e no "terá dito" e no "alegadamente", apoiados na multiplicidade de notícias fabricadas pela corja de jornalistas que pulula nos jornais, televisões, rádios e outros órgãos de comunicação corruptíveis. Em constantes violações do sigilo a que são obrigados, e muitas vezes sem provas válidas juridicamente.

Entretanto o PIB cresceu 0,9% neste último trimestre. Talvez seja uma notícia má para a oposição obtusa, que se apressará a dizer mais uma ou duas parvoíces para lhe retirar o significado, falando da educação outra vez, ou da gripe A, ou da selecção, ou do Gato Fedorento, mas o que é certo e era o que se devia dizer para podermos sair do buraco gigantesco em que estamos por anos e anos (séculos?) de mediocridade, o que se devia dizer é que estamos à frente, de muitos países, inclusive a Espanha (durante muito tempo o exemplo acabado de país desenvolvido), os esforços para conter a crise internacional resultaram, de alguma maneira, e não há volta a dar. O que há a fazer é aproveitar isto e não destrui-lo da forma mais imbecil que há - com casos...

Gostava que, à falta de um governo verdadeiramente de esquerda, socialista, com coragem para acabar com os offshores, com os lucros astronómicos dos bancos que não param de aumentar, com um verdadeiro interesse na cultura portuguesa, com vontade de educar o povo para que possamos ser melhores, os partidos se reunissem à volta de um pacto de regime. Precisamos disso como do pão para a boca.

Mas como sentar à mesma mesa PCP e CDS? É a mesma coisa que pôr um taliban e um americano a jantar.

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 15:11
link

VOJO STANIC


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 13:47
link

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
SOBRE AS REVOLUÇÕES

Uma revolução provocará talvez a queda do despotismo pessoal e da opressão fundada no interesse ou na sede de poder, mas nunca trará consigo uma verdadeira reforma das mentalidades. Pelo contrário: nascerão novos preconceitos que, tal como os velhos, servirão para conduzir à trela as massas acéfalas.

 

Immanuel Kant

 


etiquetas:

Postado por Pedro Marques às 19:14
link


Gengis entre os Pigmeus - clique para aceder
Mundo Submerso - clique para aceder
Desde 24/8/09
free counters
Pedro Marques | Cria o Teu Crachá
Pedro Marques
subscrever feeds